A última nuvem (Última parte)

- A última nuvem ( 3 de 3 - último episódio da primeira temporada)


-prenda-a no chão! – Gritou o homem, estalando os dedos de uma das mãos.
Nada aconteceu...
-Sairrus está lutando! – Lembrou Paul, apontando para a grande sala dos móveis que agora tinha boa parte de sua parede caída ao chão.
A cena não estava nada boa: O morcego levantava vôo rapidamente, e a aura tentava acompanhar seus movimentos, atacando vez ou outra. Agora a criatura havia feito um rombo enorme no teto, e repetiu o ato no segundo andar. Assim, a aura e o demônio saíram se chocando noite afora.
Noite... Havia estado preso tanto tempo na jaula de elefante que Paul mal percebeu que o tempo não havia, de fato, parado.
Por trás da batalha aérea, o rapaz loiro conseguiu a ver novamente: A lua minguante.
-SAIRRUS! – Gritou, correndo para fora da velha casa.
-Volte aqui! – Disse a garota, suas palavras saindo mais parecidas com sussurros altos do que com palavras.
Ela ameaçou ir atrás do homem de aura branca, mas Paul agarrou seu braço no último instante. Girando-a no ar e a arremessando na direção da escada. Isso poderia ter matado uma pessoa comum, Mas Paula não era uma mortal.
A jovem teria conseguido se reerguer, se Paul não tivesse lhe arremessado algumas pedras caídas da construção, que atingiram em diversos lugares. Enfim, a jovem, ensangüentada de um sangue aguado, caiu inconsciente no chão.
-Isso deve me dar algum tempo... – Ao olhar para trás, viu que o homem continuava correndo para longe, acompanhando a batalha acima de si. – Hey, espere por mim!
* * *
-Não adianta! – Inna agora gritava furiosamente, rangendo os dentes e cerrando os punhos. – Não conseguimos nem rabiscar a maldita porta de pedra!
-Temos que continuar tentando! – Alguém respondeu, mas a garota esta com raiva suficiente para não procurar saber quem era.
-Não! – Inna parecia não mais gritar, mas sim rosnar agora. – Paul é o único que tem chances de conseguir abrir passagem. Temos que ir atrás dele!
* * *
A aranha parecia crescer uns dez centímetros mais a cada segundo que se passava, mas isso provavelmente era uma peça pregada pelo pavor de ambos os dois jovens e os dois animais desmaiados no outro canto do grande salão.
Tie sentiu que, brevemente, suas pernas falhariam e ele cairia no chão pouco antes de ser devorado por um aracnídeo espiritual gigante.
Assim que sentiu o tremor que as patas grossas e peludas do animal causavam na estrutura antiga, suas últimas semanas passaram como um filme em sua cabeça. E então seus olhos começaram a enxergar, seus ouvidos começaram a ouvir...
Era como voltar no tempo...

“-Encarnados? – Micka curvara as sobrancelhas. – O que são Encarnados?
- Como eu disse, não sei. Mas, segundo a breve descrição de Madelynne, são seres com aura fria.
-Madelynne? – Tie enfatizou, era mesmo para ser uma pergunta.
-Alguma ancestral minha... Ela se chamava de “a bruxa das flores”, e era perseguida pela igreja, pelos Encarnados, e pelas sombras.”

“-Não! – Ele gritou, com uma voz séria e bizarra. – Eu era seu amigo, Tie. Mas a verdade é que você apenas me usou! Me usou para se aproximar de Mickaella!
-O que? – Tie não era o único que parecia confuso ali, mas apenas ele expressava. – Ficou louco? Eu e Micka nos conhecemos desde os seis anos de idade. É minha melhor amiga... Não preciso de ninguém para me aproximar dela, e eu não quero! Já somos próximos o suficiente!
-Não vou deixar que a roube de mim! – Riley bufava, seus olhos eram inexpressivos, e algumas veias eram visíveis em seus braços.
Ele realmente estava com raiva... Mas por quê? Transtorno bipolar?
Riley fechara o punho, e o avançava rapidamente em direção a Tie, mirando em seu rosto.”

“-Corre! – Inna sussurrou.
Tie a seguiu, dando meia volta e correndo na direção oposta a da mulher. Até serem impedidos por uma outra pessoa. Um rapaz loiro de cabelos cacheados e um corvo, o mesmo corvo que atacara os dois jovens há alguns instantes atrás.
O corvo imitava a situação do gato: Seu corpo estava se desfazendo! Algumas penas pretas flutuavam e rodopiavam ao seu redor, algumas simplesmente desapareceram. E, mais uma vez, o animal havia dado lugar a uma assustadora sombra.
-Inna... – Tie sussurrou em seu ouvido. – Não importa o que aconteça, corra! Corra como nunca correu em toda a sua vida! Enquanto fazem ‘eu sei lá o quê’ comigo você pode escapar.
-Qual é? – Inna riu mesmo nervosa. – Vai dar uma de corajoso bem agora?”

“-Também estou feliz em te ver, Isa... – Micka manteve o sorriso forçado por mais algum tempo. – Fiquei super feliz quando recebi a notícia de que viria para cá.
- Já imaginava... Você me ama, prima, não vive sem mim! – Isabella ri por um segundo.
-Modesta como sempre... – Tie não demonstrava nenhuma ponta de brincadeira em sua fala. Sua expressão séria era o que comprovava isto.
-Nossa, Mickaella, Não sabia que criava sua própria maritaca. – A jovem voltou a carregar a mala com rodas, e correu para o táxi que os aguardava antes que Tie pudesse ter a oportunidade de revidar. - Quem chegar por último é um Tie! – Ela implicou, enquanto iniciava sua própria corrida.
-Mais uma vez... Como conseguiu me forçar a vir? – Tie balançou a cabeça, em negativa, e seguiu para o táxi.”

Ele passou por tanta coisa. Todos passaram por tanta coisa. Eles não mereciam isso, Isa não merecia isso, May não merecia nada disso!
Por um momento, ele pensou em culpar Deus por tudo isso,Afinal, ele poderia ter impedido a criação desse maldito ritual, mas ele achou injusto. Quer dizer, se não fosse por Deus, será mesmo que eles teriam chegado tão longe? Eles estariam ali agora se não tivessem recebido uma ajuda divina?
Lágrimas se formaram em seus olhos e, pela primeira vez em muito tempo, ele as deixou cair. Tie gostou de sentir o líquido claro e puro escorrer por seu rosto, até se soltar e o abandonar.
Ele olhou mais uma vez para Mickaella, que chorava, agachada, no canto oposto ao que ele havia sido encurralado. Seus olhos se viraram mais uma vez, até encontrar a pequena coruja caída ao lado de Burnstein, também desmaiado.
Eram tão pequenos... E, no entanto, eles haviam salvo ele e seus amigos muitas vezes durante os últimos dias. Era como se uma pequena criatura como aquela portasse o dobro da força de todo o grupo junto. E velos no chão, assim, isso apenas intensificava a dor de Tie.
E Celly...
Talvez eles se encontrassem lá em cima, ou talvez ele vá para algum outro lugar. De certa forma, ele apenas fingia ter aceitado a morte. A verdade era que ele passava os olhos por todos os lugares em busca de alguma escapatória, mas não encontrava nada.
* * *
-Volte para cá, Sairrus! – O homem gritava enquanto corria, com Paul logo na sua frente.
-Não o chame! – Ordenou o garoto loiro. – É uma aura branca, tem muitas chances de vencer!
-E muitas de perder também! Eu não quero perder minha aura!
-Auras não morrem, ok? Elas podem ficar hibernando por algum tempo, para recuperar suas energias, mas sempre voltam! Elas... Sempre...
Era impossível falar de auras e monstros sem se lembrar pelo menos um pouco de Sturk, sua aura em forma de corvo que havia sido “destruída” por esse demônio.
Algo interrompeu o pensamento de Paul. Um grande buraco negro com raios sendo expelidos para todos os cantos.
-Agora assim! – Gritou o garoto, parecendo muito assustado. – Chame Sairrus ou ele será sugado! ANDE LOGO!
-Sugado?
-Sim, o grande morcego abriu um portal de volta para o seu lar!
-De volta... – O homem misterioso arregalou os olhos e olhou para a batalha acima. As duas criaturas voavam em direção ao buraco negro. – SAIRRUS, VOLTE AQUI AGORA! ESQUEÇA ESSE MONSTRO E VOLTE PARA CÁ!
Demorou um pouco para que a aura escutasse, mas enfim o globo branco parou a dois metros do portal e então percebeu em que se meteria caso não parasse.
Todos observaram a fuga do morcego. Assim que passou pelo buraco negro, outro grande raio atravessou o cenário, atingindo uma pequena cabana abandonada. E então, em uma fração de segundos, tudo desapareceu: O demônio, o buraco negro, os raios. Parecia apenas mais uma noite normal nos limites de Boston.
A aura desceu até o solo, transformando-se em um tigre branco mais uma vez e deitando ao lado de seu dono. Observou Paul por um segundo, como se fosse um agradecimento, e então, rapidamente, adormeceu.
* * *
- O que... – Paula levantou-se lentamente, com muita dor de cabeça e alguns arranhões profundos. – Onde todos foram? – Seus olhos notaram o estado da mansão. Estava bem diferente de como se lembrava. Bem, na verdade nem tanto, mas a sala dos móveis estava completamente destruída. – Paul? Mic...
Sua mente, enfim, voltou a funcionar corretamente. Ela precisava deter o morcego, mas o monstro já não estava mais ali, e então outro fato lhe atingiu, em fragmentos: Mickaella, prisão, Tie, aranha, jaula, pedra.
-MICKA! – Gritou, e então correu como nunca na vida, passando rapidamente pela passagem secreta ao lado da escada e chegando a um túnel de pedra com algumas lanternas acima de sua cabeça. Logo avistou os demais do grupo que tentavam quebrar a porta de pedra para que os jovens aprisionados pudessem sair de lá.
-SAIAM DA FRENTE! – Gritou, com seu coração acelerado. – ISSO JÁ FOI LONGE DEMAIS!
Seu primeiro soco causou algumas rachaduras e provocou a queda de pequenos pedaços de pedra. Seu segundo abriu uma pequena parte da porta. Não havia como alguém passar por ali, mas Paula pode ver a aranha se aproximando lentamente de Tie, com Micka agachada do outro lado. Seu terceiro soco foi certeiro: Bem no meio, o que fez com que a pedra inteira se partisse em mil pedacinhos.
Sem perder tempo, Paula entrou no grande salão antigo e correu para a cena que precisava impedir que acontecesse.
Em apenas alguns segundos, o que surpreendeu a todos, a jovem moça correu e fincou as unhas em um dos olhos da aranha, que recuou, fazendo um som que lembrava o grito de um porco.
Sem perder tempo, Paula correu outra vez, parando a apenas um centímetro da aranha. Estendeu as duas mãos e, com apenas um pouco de força a mais, arrancou uma das patas do monstro, deixando uma abertura horrível por onde vazou um líquido esverdeado e algo que parecia uma daquelas geléias de brinquedo. Outra vez, o aracnídeo gigante gritou.
-Paula? – Só agora Tie havia percebido que ainda estava vivo.
-MALDITA, NÃO MECHA COM MEUS AMIGOS! – E, com um último salto, essa parou na cabeça da aranha, onde socou com toda sua ira. Sua mão atravessou o animal, saindo do outro lado com líquido verde entre seus dedos e partes de algo que parecia um cérebro grudado ao longo de seu braço.
Com mais um som agonizante, o grande e aterrorizante monstro caiu no chão, seus olhos espumando, se desintegrando aos poucos. Quando desapareceu por completo, uma grande nuvem negra surgiu no lugar e se desfez com o vento.
Aquela aranha não era um monstro... Era a aura da dama das aranhas. Melhor dizendo, era a sombra dela. Deve ter se sentido mal por não ter conseguido salvar sua dona a tempo e se transformou nesse monstro. De qualquer forma, agora estava tudo acabado.
-MÃE! – Com uma terrível tremedeira, Micka se levantou e correu para os braços assustados da mãe, que chorou ao ver que a sua filha estava viva.
-Filha... Como é bom... Ver você...

-Está tudo bem por aqui? – Paul passou pela porta caída e ficou feliz ao ver que todos estavam bem. Por algum motivo, ele havia “esquecido” sua verdadeira missão. Ele queria realmente que todos estivessem bem, e não só por causa do ritual.
-Agora está! – Inna escondia sua raiva, como sempre, tentando parecer durona. – Paula chegou bem a tempo e salvou o dia.
-Isso é bom... – Seus olhos vasculharam cada centímetro do salão, até encontrar... – Tie, a sua coruja está desmaiada!
-Sim, ele e Burn... – Os pelos do braço do garoto se arrepiaram. O gato não estava mais ali, só havia a sua ave e alguns pedaços da construção que haviam se desprendido. – O que? O felino estava aqui! Eu tenho certeza!
-Relaxe, Com certeza aquele gato safado deve ter voltado para casa.
-Estão todos bem? – May tentou falar o mais alto que pode, mas sua voz, devido ao nervosismo, falhou varias vezes.
-Creio que sim... – Agora era Riley quem falava. E, pela primeira vez e muito tempo, todos perceberam que ele ainda existia. – No entanto, onde está Marianne?
-E Corbin! – Lembrou-se Jennifer.
-Eles devem estar bem. – respondeu Paul, coçando a cabeça. – Bem, vamos sair daqui...
-Vamos para casa! – Inna bufou. Isso significava que ela estava bem, mas realmente parecia uma ótima idéia.
-Vamos nessa... – Paula desceu do animal, ofegante e com um tom avermelhado nos olhos, e limpou seu braço em sua roupa.
-Muito obrigado! – Tie a abraçou com força. Ele mal podia acreditar que, dentre tantos amigos ali, era Paula quem o havia livrado da morte certa. Mas então se lembrou de algo. – Hey... – E então se soltou dos braços da garota.
O garoto correu para o canto esquerdo próximo a saída e pegou sua coruja no colo.
-Você vai ficar bem... Paul...
-Vai ficar bem sim. – O rapaz sorriu, e então encarou Micka por dois segundos antes de finalmente falar: - Vamos embora!


3 dias depois...

Olá, Como você está? Quanto tempo eu na venho aqui...
Eu posso dizer que estou bem melhor agora, todos estamos. Por sorte, a cidade não foi muito destruída. Parece até que nunca saímos realmente de Boston.
Assim que saímos da maldita mansão e o carro resolveu voltar à vida, Paul resolveu nos levar a uma emergência para que nos fizessem curativos. Ficaram horrorizados não com a gravidade dos machucados, pois não eram tão intensos assim, mas o que realmente lhes chamou a atenção foi a quantidade.
Isa, a prima de Micka, mandou uma carta para os pais dizendo que estava tudo bem, apesar de todo o ocorrido. Na carta ela contava dos machucados, mas inventou uma história maluca onde todos nós tentávamos andar de Jet Sky com rodinhas no meio de um mar de pedras. Com sorte, eles disseram acreditaram em tudo na carta-resposta.
Bem, tentamos voltar a vida normal (ou chegar bem próximo dela) . Amanha retornaremos a escola e Jennifer voltará a seu trabalho normal. Prometemos uns aos outros que vamos ficar sempre de olho aberto. Hoje mesmo eu fui caminhando até o veterinário para que ele tirasse todas as pulgas que Thor pegou no meio daquele matagal de beira de estrada.
O estranho é que ninguém sabe onde Marianne, Corbin e aquele estranho homem e seu tigre branco se meteram. Paul está em estadia na casa de Tie e conseguimos convencê-lo a ir para a escola conosco. Celly também não deu mais as caras por aqui, e nem mandou sinal algum. Nem mesmo Inna tem sonhado com ela.
Riley foi o único que resolveu partir. Aproveitou que seus pais estavam se mudando para Vancouver e resolveu ir com eles. O estranho é que ele não se despediu de Micka, apenas mandou um bilhete onde se lia “Prefiro acabar com tudo.” . E, mais estranho ainda, a garota ficou feliz por isso.
A notícia boa é que eu prometi a mim mesma que aproveitaria cada momento com meus amigos, já que não sei o que o destino guarda para mim. Se esse ritual todo estiver certo, eu morrerei na guerra do Eclipse. E eu não sei quando isso vai acontecer, então preciso me divertir o máximo possível!
Mas, uma coisa ainda me atormenta...
Tie me contou de suas visões... As visões que teve enquanto a mulher louca das aranhas o prendeu em outra realidade. Ele viu Paul tentando ajudar minha mãe, e viu que estavam vindo atrás de mim e de minha avó... Mas...
Eu estou viva... E no diário consta apenas a morte de minha avó. Será possível que...
Ah, quer saber, depois eu penso nisso. Agora eu preciso ir, Inna me chamou para ir ver algum filme no cinema. Tenho que aproveitar, já que essa garota nunca quer sair de seu cantinho escuro em seu quarto.
Bem, depois nos vemos então...
Agora eu vou tentar me lembrar de como uma pessoa normal vive. È isso aí, deseje-me sorte! Até mais, amigão, te vejo mais tarde!

Ah, só mais uma coisa, lembre-se sempre dessa palavra: esperança!

Agora assim, tenho que ir antes que Inna corte meu pescoço. Desejo a você um ótimo dia!

Com amor,
May Richard Crommwell. – A bruxa da fé.

A última nuvem (parte 1) (3 de 3 - Fim de Temporada)

Gente, sinto muito ter demorado tanto para postar a continuação, mas é que a escola está matando todos... Malditos encarnados! auhsauhsuha . Bom, aqui está a continuação, espero que gostem...

>> A última Nuvem : Parte 1

-SSHHHRIIIEEEEK!
Todos olharam instantaneamente para a sala dos móveis. Eles sabiam muito bem o que produzia esse som, embora não quisessem o ouvir exatamente agora.
-Paula, nós somos mais fortes que os outros, - Começou Paul. – Ficamos aqui e tentamos deter o demônio! Riley, Inna, May, Jennifer e Isa, vocês voltem de onde viemos e tentem descobrir como se abre aquela... Pedra.
-Certo! – Disse Inna, dirigindo-se a uma pequena passagem quase imperceptível ao lado da escada. – Vamos pessoal!
* * *
-CUIDADO! – Micka empurrou Tie com força quando o monstro lançou sua estranha teia na direção do garoto.
-BURNSTEIN, FAÇA ALGUMA COISA!
A aura negra avançou sem medo para o animal. Seu núcleo em forma de globo chocou-se contra o monstro, que se recolheu um pouco, e a fumaça que o cercava começou a cobrir a criatura como um casulo.
-Está dando certo? – Perguntou Mickaella, meio que para o vento.
Logo a aranha voltou a sua posição de ataque, batendo com força sua cabeça na sombra e fazendo-a parar do outro lado do salão. Burnstein, já em sua forma felina, parecia desacordado.
-Olhe! – Apontou Tie, embora não precisasse, para mostrar que o monstro dirigia-se para o gato nocauteado. – Ela vai matar Burnstein!
-Faça alguma coisa!
-Coruja...
A aura azul avançou rapidamente na direção dos dois animais, pondo-se entre ambos bem no momento que a aranha preparava suas presas. Em uma tentativa de ataque, a coruja começou a produzir sua luz azulada ofuscante, mas o monstro já esperava por isso. A aranha saltou, usando suas patas para se agarrar ao teto e ir em direção aos adolescentes, que começaram a bater desesperadamente na grande pedra que bloqueava a saída.
-NOS TIREM DAQUI! – Gritavam.
* * *
-SHRIIIIIEEEEEK!
O grande monstro saiu lentamente da sala dos móveis, quebrando uma parte da parede antiga que caiu no chão.
Paula se colocou em posição de ataque, mas permaneceu parada por muito mais tempo, enquanto Paul avançou contra o demônio, que esquivou facilmente.
-Mas que droga! – Gritou o garoto de olhos azuis meio segundo antes de bater em cheio contra a parede quebrada.
Paula não conseguia se mover. Seus músculos não a obedeciam. Ela parecia ter virado pedra...
-Sairrus, ataque!
Ao comando do homem desconhecido, o grande tigre branco avançou na direção do grande morcego, transformando-se em aura no meio do caminho. O que fez Paul e Paula terem de fechar os olhos por um instante.
Diferentemente de Sturk ou Burnstein, essa fazia a vista doer de tão clara que era. Era praticamente impossível encarar seu núcleo em forma de globo, já que o mesmo produzia uma magnífica luz branca e um pouco forte demais para olhos humanos.
A aura se chocou contra o peito peludo e esquelético do demônio, que foi arremessado com força para trás, voltando à grande sala dos móveis.
O som de muitas tábuas se quebrando foi o suficiente para fazer com que a consciência de Paula retornasse à vida. A garota observou o ambiente por rápidos e confusos três segundos, e então encarou a criatura caída no chão a poucos metros de distância. A garota percebeu que havia algo rondando o ar acima do monstro... Uma aura!
-Magia branca... – Sussurrou, com uma voz rouca, enquanto seus olhos conseguiam um vago tom avermelhado em seu núcleo.
-Paula... Paula... – Gritava Paul, enquanto se levantava lentamente e entre gemidos. Ele sabia muito bem o que estava acontecendo. – Essa não... Isso não é hora para se ter a primeira recaída...
-O que está havendo? – Perguntou o homem, dono do tigre branco.
-Se afaste! – Ordenou como resposta. – Esta tendo uma recaída. Isso é quando algum de seus sentimentos humanos se intensifica e toma conta de sua mente!
-E o que ela está prestes a sentir?
-ISSO! – rosnou a garota, dando uma volta em torno de si mesma com uma das pernas levantada. Essa acertou em cheio o rosto bronzeado do homem de jaqueta de couro preta, que secou o sangue escorrendo do canto de sua boca.
-O que essa louca...
-Ela não controla o que faz! – Advertia Paul, esquivando-se do segundo chute que, dessa vez, foi direcionado a ele. – Ela está respondendo aos seus novos instintos... E o principal deles é matar!
-Mas que ótimo! – Ironizou o homem.
Os trinta segundos que levaram na conversa os distraiu, e quando voltaram a si perceberam que o morcego tentava dilacerar o pobre tigre, que continuava a atingi-lo, ainda em seu formato de aura branca.
* * *
-BURNSTEIN! – Gritou Mickaella, desesperada, enquanto o ser gigante lançava suas estranhas teias para todo lado. Por sorte, nenhuma delas havia se enroscado nos jovens.
O gato, como aura, avançou rapidamente, chocando seu núcleo global na cabeça da aranha, que fez um som parecido com um gemido, mas então continuou avançando na direção dos adolescentes.
- CORUJA! AJUDE-NOS! FAÇA ALGUMA COISA! – Implorou Tie, enquanto empurrava Micka para um lado e se jogou para o outro no exato momento em que o monstro cravou os dentes na porta de pedra.
-ANDEM! – Micka correu para o outro canto da sala, enquanto Tie correu para o outro canto. Se fosse para morrer, pelo menos que confundissem a maldita aranha antes!
-ALGUÉM QUER ABRIR ESSA PORTA? – Gritava ele o mais alto que podia... Inútil! –Por favor...

-continua...





> O mesmo! ^^



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Episódio 15 (2 de 3 - Fim de temporada)

“Acorde com um sorriso, levante com um suspiro, desperte com um beijo.”

-O dia está tão lindo... – Disse, em um tom casual, enquanto encarava uma linda e grande árvore da lua. – Como estão seus hospedes hoje? – Eu me referia aos pequenos pássaros que construíam um ninho em um de seus galhos mais baixos.

-Querida, o lanche está pronto! – Gritou minha mãe, de nossa cozinha.

-Já estou indo! – Disse, e abri um imenso sorriso ao sentir o cheiro de seu famoso bolo de laranja. Bem, famoso pro meu estômago. – Bem... – Encarei mais uma vez o ser-vivo fixo bem na minha frente. – Tenho que ir!

Nesse instante, senti uma gota doce se chocar contra uma de minhas bochechas. Outro sorriso se abriu, e em meus olhos nasceu a ansiedade. Eu queria sentir aquela chuva. Abri os braços, e então o céu deixou que suas lágrimas tocassem o meu corpo.

No rádio, uma conhecida música do Michael Jackson parecia dançar conforme meus passos sob a chuva: “You are not alone ( Single version).”

Eu tinha a vida perfeita, e esse dia me comprovou isso. O tempo se acostumava aos meus desejos.

Gostaria tanto de voltar no tempo... Queria sentir aquelas lágrimas mais uma vez. Queria poder sorrir para minha árvore preferida, minha melhor e solitária amiga. Queria estar com minha família...

Como será que eles estão agora?

...2 meses depois...

-Espero que estejam bem... – Sussurrou Isa, enquanto encarava o gigante portador dos machados. Seus olhos não desviavam do espírito mercenário nem por um segundo sequer.

Do outro lado da jaula, Micka e Paul ainda tiravam dúvidas um do outro em questão aos últimos dias.

-Espíritos mercenários acreditam que a ausência do amor em suas vidas seja culpa de Deus, - Continuava o garoto loiro. – Por isso não suportam quando alguém começa a falar dele.

-Isso é horrível! Quer dizer... Não faz sentido.

-Tente explicar para ele! –Sorriu, apontando com o nariz para a criatura/vigia que ainda segurava firme um dos machados. O mais aterrorizante de todos.

Era um grande machado negro com algumas partes vermelhas. Queriam muito acreditar que o vermelho era tinta.

-Paul... Você já encontrou um amor?

O rapaz abaixou a cabeça e começou a rabiscar o chão com o dedo. Havia muito tempo que ninguém lhe perguntava nada parecido com isso. Embora fosse um encarnado, um coração ainda batia em seu peito. Muitas vezes, ele descumpriu as ordens de Marianne por mágoas passadas relacionadas ao amor. Mas, é claro, ele nunca contaria isso para ninguém.

-Eu prefiro acreditar que não... – Respondeu, enfim, encarando mais uma vez a garota que lhe causava certa sensação estranha.

Micka o abraçou, e um frio sobrenatural surgiu em ambos. As mãos femininas começavam a suar, enquanto as outras as apertava suavemente, e seus olhos finalmente se fecharam.

-Não ignore o que Deus lhe deu, só porque o homem lhe tirou! – Completou Mickaella.

Esta era uma experiência muito difícil. Ninguém mais agüentava ficar preso naquele inferno de jaula.

Paul suspirou.

* * *

-Isso não te interessa no momento! – Respondeu o homem, revirando seus olhos e voltando-os para seu grande mascote. – Sairrus, acabe com ela!

O Tigre expôs suas grandes presas em um rugido, e então, sem pensar duas vezes, a ação começou.

-NÃO! – Gritou May, assustada, enquanto as lágrimas escorriam freneticamente por seu rosto sujo. Ela quase enlouqueceu quando algumas gotas de sangue respingaram em sua roupa.

O animal estava fazendo um belo trabalho. Logo, não havia mais vida nenhuma naquele corpo arrebentado que ocupava espaço no antigo chão.

* * *

Um grito assustador preencheu a atmosfera. Occino, o gigante, estava caindo de joelhos no chão. Suas mãos e suas pernas estavam se desfazendo. Desaparecendo, literalmente. Logo abaixo dele,formava-se uma poça negra de sangue demoníaco.

-Para trás! – Ordenou Paul, ajudando Micka a se levantar e colocando-se a sua frente.

Logo só o que restava eram suas unhas, uma enorme calça rasgada, e diversos machados maiores do que qualquer um no grupo. Paul se aproximou de algumas grades, para ver um pouco melhor o que estava havendo.

-O que houve? – Perguntou Tie, enquanto sua coruja e Burnstein saiam com facilidade da jaula.

-Bem... A doida aracnídea não faz mais parte desse mundo! – Respondeu com um sorriso. – Ela, e seu amigo mercenário, estão literalmente mortos!

-Mortos?

-Sim, quero dizer exatamente isso! Estamos livres, vamos! Não podemos mais perder tempo!

-Ah... – Inna se encolheu ao lado de Paula e Tie assim que viu algo estranho perto do seu lado da jaula. – Na verdade, temos um novo problema!

Estava no canto de trás esquerdo: Muitas aranhas. Milhares dela. Estavam todas se amontoando, formando, aos poucos, um novo ser vivo. Onde elas subiam, nessa nova criatura, grudavam e formavam uma nova parte dela.

-Abra a jaula agora, Paul! – Disse Paula, ficando mais horrorizada do que antes. – Se continuarmos presos aqui não teremos nenhuma chance! Estamos sem espaço!

E então foi! Paul chutou a porta de grades bem no meio, fazendo ir parar longe.

-VAMOS! SEJA O QUE FOR, ESTÁ QUASE PRONTO!

Todos saíram correndo, feito desesperado. Passaram pela abertura de pedra assim que Paul e Paula trabalharam juntos para abri-lo. Em alguns segundos eles conseguiram sair do estranho salão. Haviam, de algum modo que ambos não haviam entendido, voltado para a entrada da mansão. A porta de pedra se refez e se fechou logo atrás deles, com um horrível estrondo.

-May! – Gritou Inna, e correu para abraçar a amiga que chorava. Ignorando completamente o tigre branco que rugia e o corpo sem vida no chão.

-Esperem! – Gritou Paula, chamando a atenção de todos. – Não estamos esquecendo nada?

-O que? – Inna desfez o abraço em um salto, ainda sendo possuída por uma tremedeira surreal.

Um frio percorreu a espinha de Paul.

-Onde estão Micka e Tie?

Todos se entreolharam.

-E Burnstein e aquela coruja também não estão aqui! – Completou Inna.

* * *

-SOCORRO! – Gritava Tie, enquanto batia inutilmente na grande pedra.

-NOS TIREM DAQUI. – Micka tentava, sem sucesso, prender as lágrimas que tentavam escapar de seus olhos.

Logo o novo ser havia ganhado, de fato, a vida. Era uma grande aranha azul e preta

Um pouco maior que Occino, e em sua cauda havia um enorme ferrão negro e reluzente que parecia ter sido polido para a ocasião. E suas presas... Bem, eles deveriam evitá-las a qualquer custo.

-O que vamos fazer? – Perguntou Micka, enquanto ela, Tie, e os mascotes, se viravam para encarar a aranha gigante.

-Rezar para que não tenham lhe feito um estômago!

Os dois animais se transformaram em dois globos de luz cercados por fumaça. Um negro, e outro azul.

-Temos que enrolar até alguém nos tirar daqui!

Micka Assentiu. Não tinha nada mais a se fazer.

-Vamos!

Depoimentos (J.Cast.): Espero que isso chegue até você...

As vezes, quando perdemos algo que é muito importante pra nós, nos esquecemos de que sempre resta uma parte imortal que marca pra sempre nossos corações, almas, e desejos. Quando vivemos, não ganhamos um manual de avisos ou instruções que nos prepare para o preço que viver nos custa. E mesmo que ganhássemos, de nada adiantaria.
Nunca estamos preparados para perder. Nunca estamos.
Perdas e lágrimas andam de mãos dadas, sempre invocando a saudade, afastando a felicidade. Preparadas sempre pra nos derrubar em nosso momento de maior fraqueza. Sempre nos apunhalando, não pelas costas, mas pelo sorriso. Ou a falta dele.
De qualquer forma, lágrimas não trazem o que perdemos de volta. Não, e isso é verdade. Mas elas trazem as lembranças. Trazem os sentimentos, as emoções, os olhares, os momentos. Elas nos fazem reviver com sua quentura indesejável e aconchegante.
Elas nos trazem os sonhos. E nos trazem os medos.
Mas a verdade não é o que o espelho me mostra. Você realmente não está ao nosso lado agora. Digo, Vocês não estão.
E tanta bobagem, não é mesmo? O fato de eu sentir ciúmes de você naquela época, por você passar mas tempo do que eu com a pessoa de quem eu achava que gostava. Ou gostava mesmo. E, hoje, eu queria poder sentir esse ciúme bobo de criança. Tive que saber pela televisão da sua partida. Sabia disso? Talvez por que eu estivesse afastado na época... Eu não sei. Mas eu sei de alguém que sente muito a sua falta. E por isso te escrevo agora. Não por mim, entendeu? Você sabe de quem eu estou falando! ;D Sempre vai saber, porque são suas lembranças. Eu acho que isso fica com você, não fica?
Talvez você só estivesse no lugar errado, na hora errada. De uma coisa eu sei, Deus sabe o que faz.
E sabe o que mais? Não acredito que tenha sido ele a fazer isso. Afinal de conta, ele nos deu o livre arbítrio não é mesmo? Não é culpa dele...
Faz tanto tempo, não é mesmo? Como você está? É muito diferente aí?
Bem, sinto que não posso ter essas respostas no momento... Mas um dia vamos nos ver, não é mesmo? Todos nós...
Enfim, vou deixar que descanse, okay? Tenha um infinito de luz e um tornado de amor. Abraços!!! ^^

Para todos aqueles que acham que eu não gosto de Deus!

Gente, vocês estão exagerando muito! Quem me conhece sabe muito bem que eu sou uma daquelas pessoas que reconhece uma mensagem subliminar de longe! Eu queria dizer que a coruja do Tie não é uma mensagem subliminar! Na verdade nada aqui é uma mensagem subliminar!
Eu amo Deus, Jesus Cristo, o pai eterno e único santo, acima de tudo! Eu acredito, sim, em mensagens subliminares. Mas acontece que também existem coincidências!
Então quer dizer que não pode ter coruja em lugar nenhum só por causa de um simbolo que, pessoalmente, não me diz nada? Eu AMO corujas assim como eu amo todos os outros animais desse planeta. Justamente por que foi Deus quem criou!
Enfim... Estou só descontando a raiva que uma pessoa me passou!
-Beijos, Amo vocês!! Fiquem com Deus!!! ;*

Episódio 14 (1 de 3 - Fim de temporada):

O gigante era realmente horrível visto de perto. Não que alguém ligasse muito para isso. Mas era amedrontador, principalmente quando se via todos aqueles machados que ele carregava presos à sua cintura.

-Espíritos, encarnados, bruxas, auras... – Começou a dizer Micka, bem baixinho, entre soluços. – E agora, ainda por cima, gigantes?
-Não é um gigante! – Afirmou Paul, sentado no chão ao lado da jovem, possuindo o mesmo tom de voz do da moça. – É um espírito mercenário.
-Espírito o que?
-Espírito mercenário. – Repetiu. – São espíritos daqueles que de tudo tiveram enquanto estiveram vivos, mas nunca vivenciaram um verdadeiro amor. Como um meio de fuga, esses espíritos tentam encher seu coração com coisas materiais e outras baboseiras. Mas a verdade é que nunca se satisfazem...
-Um verdadeiro amor...
-É triste admitir, mas o número dessas criaturas cresce cada vez mais...
Micka não consegue resistir. Ela espia o gigante, desta vez, com pena. Ela consegue imaginar o que é viver sem amor. Viver sem o calor do colo de uma mãe, sem o aconchego no braço dos pais. Sem beijos. Sem aqueles deliciosos arrepios na nuca toda vez que seus lábios se encontram.
Ela consegue imaginar como seria uma vida sem esperanças...
Uma vida sem cor, sem calor, sem toques.
Como resultado, uma frágil e gélida lágrima escorre por um de seus olhos.
-Quando você diz...
-Não Micka... – Ele morde fraco o lábio inferior assim que sente a agonia da menina. – Nenhum tipo de amor.
-Mas... Não é possível, Paul! Eles não têm...
-A maioria é abandonada pela família ainda bebê ou durante a infância. Quando não isso, eles simplesmente são explorados por elas. E isso cria não só um trauma no mundo dos humanos. – Ele encara a face gélida do chão de pedra por um momento. – O espírito também fica marcado... É uma cicatriz que permanece para sempre...
-Isso é... Horrível! – Sem conseguir se segurar, o rosto da jovem já estava completamente encharcado por causa das inúmeras lágrimas que agora deslizavam por ele até o seu queixo, onde se soltavam para testar a força da gravidade.
-Você está chorando? Hm, isso não é bom...
-E... Por que não?
-Ninguém chora por espíritos como... Este... – Ele apontou com o nariz para Occino, fazendo cara de nojo. – A menos que o tivessem conhecido durante a vida.
-Então quer dizer que...
* * *
-Não será assim tão fácil, otário! – Gritou a dama das aranhas, transformando-se em uma espécie de areia negra e se materializando novamente do outro lado da sala.
-Ou será que vai? – Retrucou, estalando os dedos.
Foi nesse momento que um grande tigre branco saltou em cima da bruxa, que caiu no chão.
-Conheça meu novo companheiro! – Ele a encarou enfurecidamente, enquanto ela se debatia no chão.
-Maldito! Eu vou te matar! Você vai...
-Cale-se! Sabes muito bem que auras brancas neutralizam a magia. Sua tentativa de fuga é inútil. Agora, diga: Onde estão os escolhidos?
Um grito encheu a atmosfera no minuto em que o tigre rugiu. Parada, entre a sala dos móveis e a escada, estava uma jovem de cabelos lisos que carregava um cachorro no colo. Parecia estar desperta há pouco tempo, mas estava bastante atenta a tudo.
* * *
-Está se sentindo melhor? – Tie se sentou entre Inna e Paula, que acariciava a coruja, sentindo o arrepiante frio que era o chão daquele local. – Você foi arremessada no chão muitas vezes...
-Tie... – A garota de roupas sujas e rasgadas não parecia ter prestado atenção à pergunta do garoto. – Acha que sobreviveremos? Acha que temos alguma chance de ter uma vida normal outra vez?
-Eu acho que Deus sempre tende a nos dar presentes brilhantes em caixas amassadas!
-Eu... Eu não entendi.
-Somos fortes, Inna! Mais fortes do que todos pensam...
Era incrível como Tie ainda tinha esperanças de um mundo melhor, pensava a jovem. Quer dizer, eles estavam presos em uma jaula para elefantes, sendo vigiados por um... Gigante... E, ainda por cima, sendo perseguidos por espíritos e outras criaturas que desejavam seus corpos desesperadamente. E, mesmo assim, Tie acreditava que conseguiria sorrir outra vez.
-Onde você encontra tanta felicidade assim?
-Do que você está falando?
-Olhe em sua volta, Tie! – Ordenou, fazendo ela mesma a ação. – Estamos aprisionados! Tie, quando aquela mulher voltar, todos nós morreremos. Você sabe disso, sabe que ela nos matará. E, no entanto, continua sorrindo como...
-O que você quer levar?
-Anh... Desculpe-me mas... Eu não entendi.
-Quando morrer, Inna, o que você quer levar com você? Os lindos momentos que todos nós tivemos juntos, ou a agonia que sentiu antes de morrer?
-Você...
-Eu não quero lembrar como foram meus últimos minutos de vida... Eu não quero lembrar o quanto eles me maltrataram antes de me matar de vez... Eu só quero lembrar, Inna, de vocês! De tudo que passamos, de todos os sorrisos, de todos os abraços...
-Eu não consigo pensar assim.
-Não tem que pensar... Tem que viver!
* * *
-Quem é você? – Perguntou o homem misterioso, ainda enfurecido.
-M...M...May... May Rich… Richard Crommwell.
-Crommwell? – E então o homem largou o facão, deixando cair e bater no chão, arranhando-o um pouco, esquecendo-se completamente da mulher que seu tigre branco prendia. – Você é a descendente das Crommwell?
-E...E... E você q...Q... Quem é?
* * *
-Por quanto tempo você vai continuar fingindo que não está acontecendo nada entre você e Riley? – Paul continuava sentado no mesmo local, ainda conversando com Micka, que agora apoiava sua cabeça no ombro do rapaz.
-Eu não sei o que está havendo... É só que... Eu não sei mas se sinto a mesma coisa que sentia uma semana atrás. Perdeu o sentido.
-Talvez nunca houvesse tido um sentido.
-O que?
-O amor é complicado, Micka. É muito contraditório. È a coisa mais leve do mundo, mas pode te criar um super peso na consciência. Quero dizer, amor que é amor, não se acaba.
-E como eu vou saber quando é “amor” de verdade?
-Você nunca vai saber. A não ser que sinta ele se desfazer. Se isso acontecer, pode ter certeza de que não passou de uma paixão prolongada pelo desejo de amar. Amor que é amor, é imortal. Infinito.
-Eu acho que o amor pode sim acabar!
-Ah, é mesmo? Então você esta querendo dizer que um dia Deus pode sumir?
-Não foi isso que eu disse!
-Micka, pense comigo: Se você acha que o amor verdadeiro pode acabar, está sugerindo que qualquer dia desses Deus pode desistir de nós! Está dizendo que Deus pode deixar de nos amar...
-Não! Eu sei que Deus não vai nos abandonar nunca! Se bem que... Poderíamos cuidar melhor das coisas que ele cria.
-Isso é verdade!
-GROOOOOOAAAAAAAAAAR! – Occino, neste momento, segurou com força um de seus machados e o chocou contra algumas grades de ferro da jaula.
* * *
 

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