Lua Escura - Parte 1
A manhã alaranjada vinha acompanhada de uma leve e doce onda de ar que avançava lentamente sobre a população da linda Boston. No alto, onde o céu não dava espaço a nuvens, pássaros voavam livremente, compartilhando seus cantos e suas cores vivas que pareciam concordar com o tom da luz natural.
Olhei atentamente para um jovem casal de esquilos que se esconderam atrás de uma moita assim que eu me aproximei. Não consegui conter o sorriso, e nem quis. Era muito bom poder sorrir novamente. Descansar. Poder pensar um pouco como alguém normal, em uma rotina normal, em seu mundo completamente normal.
Infelizmente... Sei que isso não vai durar muito.
——————— MAY:
A rua estava vazia devido ao horário. Estava muito cedo. Eu caminhava alegremente enquanto meu i-pod reproduzia “When i look at you” da Miley Cyrus. Estava um dia realmente perfeito para mim.
Finalmente cheguei ao meu destino.
Passei pelos gigantescos portões centrais da escola, cumprimentado os muitos alunos que já haviam chegado e agora se distribuíam em seus pequenos bandos. Era ruim ter de falar com todos, mas eu queria realmente fazê-lo. Queria, mais uma vez, brincar de ser importante em meio à sociedade.
Passei direto pelo pátio central, subindo pela escada de meio-pátio e chegando a uma área do segundo andar onde o caminho oferecia três opções. Três corredores distintos: Um repleto de armários com banheiros ao final; Outro onde foram construídos quatro enormes laboratórios de química; E outro que resultava em pequenas salas de aula de línguas estrangeiras diferentes.
Dei uma olhada para além da escada, para o pátio por onde eu havia acabado de passar. Lá estavam Paul e Tie. Tie tentava ser o GPS do garoto loiro até que ele se acostumasse de verdade com o local. Parecia estar fazendo um belo trabalho, pois Paul possuiu uma expressão ansiosa assim que seu amigo apontou para a sala de aula teatral.
Voltei minha atenção para o corredor dos laboratórios. Eu estava realmente doida para conseguir uma daquelas questões quase impossíveis de equilíbrio molecular. Por sorte, essa seria minha primeira aula.
—Pensei que vocês tivessem saído da cidade...— Disse uma voz, quebrando minha atenção. Levei um tempo para me recompor do susto depois que olhei para o lado e vi que não passava de um garoto otário predestinado a não ter futuro nenhum.
—Pensei ter dito a você para não se aproximar de mim ou de meus amigos! – Respondi rapidamente, lançando-lhe um olhar de fogo e culpando a genética por não ter me criado caninos pontudos e garras afiadas.
—Sou o tipo de cara que não sege regras...
—Mesmo? Então, adivinha só: Ontem eu passei no cartório e mudei meu nome para “Regras”! — Sorri sarcasticamente. — Ou seja, já pode me deixar em paz e ir procurar algo para fazer!
—Talvez eu deva mesmo! — Disse, recuando dois passos sem desviar os olhos de mim. — Quem sabe eu e Micka não tenhamos uma conversinha? Ela não me satisfez da última vez. Está me devendo muita...
—Fique longe dela! — Meu tom de voz mudou de impaciente para raivoso. Talvez eu estivesse mesmo exagerando, mas Micka merecia um pouco de descanso antes de receber de volta seus antigos problemas. — Estou avisando, Andrew, se você ousar permanecer no mesmo pátio que ela, eu...
—Você o que? – Perguntou, abrindo os braços, sem abandonar o sorriso. — Você me tortura até a morte? Ou, não, você chama seu novo amiguinho para me torturar... Ai... Já consigo sentir a dor e o sangue me abandonando...
—Algum problema? — Não consegui evitar levar mais outro susto quando uma terceira voz foi auto-adicionada a conversa.
Drew então cruzou os braços, desfazendo o sorriso e voltando seu olhar para o outro garoto, analisando-o de cima a baixo. Às vezes eu me esqueço de que Paul consegue escutar mais do que um humano deveria...
—Não... — Respondeu o ex-namorado de Mickaella, mesmo que a pergunta não tenha sido direcionada a ele. — E, mesmo que estivéssemos com algum, não precisaríamos do seu intrometimento.
—Paul, deixe-o. Não vale a pena... — Disse, puxando o braço do rapaz loiro e o carregando para longe. Demorou um pouco, pois ele era forte demais, mas consegui. Só então percebi o quanto é difícil ter um amigo encarnado, ainda mais quando esse quer se meter em brigas. Em minhas brigas.
Deixamos Andrew resmungando algo à beira da escada, e entramos no corredor dos laboratórios de química, entrando no de número três e sentando na segunda mesa tripla da quarta fileira. Por um instante, voltei a me lembrar do meu último dia na escola antes do caos. Bem no dia em que Micka e Tie foram esperar Isabella no aeroporto. O mesmo dia em que o Sol havia brilhado para nós mais uma vez. O que me assustou outra vez, pois o Sol brilhava hoje mais uma vez.
—Hey, agora vai roubar o meu lugar também? — Disse Tie, sorrindo, enquanto jogava sua mochila no chão e se sentava na última cadeira vaga da mesa. — O que houve? Eu virei por um minuto para pegar a chave de seu armário e você desapareceu.
—Sim, resolvi fazer novas amizades. O povo daqui é bem... Confiante.
—Andrew?
—Sim! — Respondi, antes que Paul soltasse mais um deboche sobre a população de Boston. — Pelo visto as coisas não mudaram por aqui... Nem um pouco.
—É claro. — Opinou Tie. — Não se esqueça de que todo esse sinistro “combate” só aconteceu para nós. Ninguém sabe de nada May, eles não perderam a proteção, lembra? Ninguém daqui consegue ver absolutamente nada do que conseguimos.
Parei para refletir por um segundo.
Parecia loucura, mas era verdade. Tudo pelo qual passamos foi uma história quase que particular. Era-se capaz de ousar pensar até que tudo foi fruto de nossa imaginação. Não fossem as marcas que nunca nos deixariam, poderíamos nos considerar legítimos loucos.
Abaixei a cabeça por um segundo e a balancei, em negativa, enquanto ouvia fragmentos da conversa dos dois garotos ao meu lado. Passou mais um segundo e eu olhei para a outra fileira de mesas, onde todas estavam lotadas de livros esquecidos e reações feitas pela metade. Por um momento pensei em terminá-las, mas então percebi que não me lembrava de absolutamente nada condizente a matéria.
—E o que acontece agora que a lua minguante se foi? — Perguntou Tie, capturando de volta minha atenção.
—Ainda estamos sujeitos a ataques, embora as criaturas tenham muito menos força durante outras fases da lua. — Respondi.
O diário de minha avó foi o suficiente para que eu encontrasse a resposta de tal pergunta. Eram incríveis as descobertas feitas por ela em tão pouco tempo de magia. Porém... Sinto que ainda á algo de errado naqueles registros.
Sete horas haviam se passado. O caminho de volta parecia-me tão tranqüilo quanto o de ida. Em alguns minutos eu estava em meu quarto junto a Thor, que dormia debaixo de minha cama.
Agora eu estava com o diário de Madelynne aberto em meu colo, enquanto eu lia uma das páginas do meio. Nela, haviam descritos dois feitiços de ataque: Um deles servia para distrair, e fazia com que uma terrível tempestade se iniciasse no momento em que o feitiço fosse conjurado; e o outro fazia apenas com que qualquer líquido próximo ao bruxo atacante congelasse instantaneamente. Em meu ponto de vista, feitiços inúteis.
Virei à página.
Essa era uma das páginas que eu já havia lido. Mesmo assim, foquei meus olhos nas últimas palavras, ainda sentindo um calafrio ao fazê-lo:
“Quem conseguir ler isto, obviamente é um Crommwell legítimo! Provavelmente este é o fim para mim... Mas você,seja quem for,caro amigo,ainda pode se salvar! Ainda DEVE se salvar... Se esconda, eles te seguirão, e você deve estar preparado (a)! Boa sorte...
Madelynne R. Crommwell – A bruxa das flores.”
Passei, fria, para a próxima página. Vazia.
Avancei mais duas. Nada.
Estava claro... Aquele foi o último registro de minha avó. Ela não teve tempo de ensinar mais aos futuros Crommwell’s... Não teve tempo de tentar nos preparar para as guerras... Ela foi pega. Foi morta. Mal teve a chance de chegar à guerra do eclipse e tentar manter sua honra.
Mas agora possuo meus próprios problemas... Não posso deixar me abalar por algo do passado. Não agora, justo agora, que todos dependem tanto de mim. De minha mágica inexplorada e, até pouco tempo, inexistente.
Não... Eu preciso ser forte! Preciso de mais...
—Preciso praticar! — Disse, em voz alta, enquanto fechava o diário e caminhava decidida em direção ao jardim.
Desci as escadas e passei pelas portas até chegar ao local desejado, onde eu me assustei ao ver um animal um pouco maior que um cachorro me encarar do canto de margaridas.
—O que é... — Cancelei minha fala assim que reconheci a espécie. Deixei o diário cair, aturdida, e senti minhas sobrancelhas se curvaram involuntariamente. Minha boca congelou, aberta. Fiquei definitivamente paralisada. Se eu não estivesse realmente doida, o que eu estava vendo bem na minha frente era uma...
— Uma legítima Raposa-das-falkland. —Disse uma voz atrás de mim, que me fez pular de susto antes de me virar para trás. — Ou, se preferir chamar assim, Lobo-das-malvinas.
Enfim consegui encontrar o ser que falava comigo. Era uma garota, aparentava ter minha idade e era um pouco mais alta do que eu. Seu cabelo, liso e preto com mechas e pontas azul-escuro, estava preso em um rabo de cavalo, e caía até sua cintura. Ela vestia um conjunto gótico completamente preto: Uma blusa de mangas longas com a estampa de um crânio roxo no centro e uma saia que ia até os joelhos, um par de all-star preto, meia-calça preta e pulseiras pontiagudas roxas e prateadas. Por um momento, lembrei-me de Inna, era impossível não lembrar. Seus olhos eram verdes com rabiscos finos e pretos ao redor, e suas unhas também eram pintadas de pretas.
Peguei o diário do chão e o abracei forte assim que percebi para onde ela direcionava o olhar. Isto a fez sorrir maliciosamente. Após alguns instantes de silêncio, percebi que Thor havia me seguido e rosnava para a raposa. Tentei ignorar, voltando minha atenção para a garota.
— Raposas-de-falkland foram extintas no século XIX. —Soltei, assim que percebi que não sabia o que dizer. Mais uma vez, ela apenas sorriu.
—Me chamo Amy... — Disse, mordendo os lábios. — Amy Crommwell. Feliz em me conhecer, priminha?
Perdi a respiração por dois segundos. Não consegui fechar os olhos, minha pele gelou, minhas mãos enfraqueceram, mas não o suficiente para que eu largasse o livro de minha avó. Enfim, consegui recuperar meus sentidos, embora eu ainda estivesse completamente assustada. Quer dizer, existem outros Crommwell’s? Eu não sou a única?
—Ouvi dizer que está com o diário de minha avó... — Disse ela, estendendo a mão direita. — Ficarei feliz quando me devolver.
—Devolver? —Perguntei, rangendo os dentes. Por algum motivo, eu não conseguia controlar minha raiva com a presença dela. — Eu não preciso te devolver nada! Este diário nunca foi seu, foi de minha avó! Por que eu te devolveria?
—Porque se você não o fizer por bem, eu vou ter que pegá-lo a força! Apenas um legítimo bruxo-Crommwell deve possuir este livro.
—Qual parte da “minha avó” você não entendeu? — Respondi, sentindo o calor subir ao meu redor. — E você? Seu nome nem sequer aparece em alguma página. Em todas as páginas, Madelynne deixa bem claro que o propósito de sua vida era salvar a mim e a minha mãe. Então, se você acha que eu não sou uma herdeira do poder, saiba que você nem sequer existia para ela! — Senti mesmo que fui rude demais. Porém, foi ela quem começou a provocar.
A garota sorriu mais uma vez, com os braços cruzados. O que me fez ir a loucura.
—Então é você mesmo... — Disse ela, enquanto me olhava dos pés a cabeça. — A legítima filha de Cloe... Aquela que foi escolhida pela “guerra do eclipse”.
—Como... Como você sabe sobre isso?
—Quando se é uma das ultimas duas pessoas de uma linhagem inteira de bruxos, você precisa saber do que se esconder...
—O que você quer comigo, então? — Perguntei. Não queria me deixar levar apenas pelo fato de ela ser meu único parente viva no mundo inteiro. Ela não era como eu.
—O diário! — Respondeu, batendo um dos pés no chão, o que fez a raposa saltar, com os dentes a mostra, no pescoço de meu cachorro.
—VADIA! — Sem saber como, ao olhar para o animal atacante, fiz com que o mesmo fosse arremessado para longe, batendo e quebrando a cerca de madeira que ficava em volta do terreno. Voltei a encarar a garota, que agora era envolta por uma espécie de fumaça roxa.
—Agora vamos jogar do meu jeito!
(Continua...)
A última nuvem (Última parte)
Nada aconteceu...
-Sairrus está lutando! – Lembrou Paul, apontando para a grande sala dos móveis que agora tinha boa parte de sua parede caída ao chão.
A cena não estava nada boa: O morcego levantava vôo rapidamente, e a aura tentava acompanhar seus movimentos, atacando vez ou outra. Agora a criatura havia feito um rombo enorme no teto, e repetiu o ato no segundo andar. Assim, a aura e o demônio saíram se chocando noite afora.
Noite... Havia estado preso tanto tempo na jaula de elefante que Paul mal percebeu que o tempo não havia, de fato, parado.
Por trás da batalha aérea, o rapaz loiro conseguiu a ver novamente: A lua minguante.
-SAIRRUS! – Gritou, correndo para fora da velha casa.
-Volte aqui! – Disse a garota, suas palavras saindo mais parecidas com sussurros altos do que com palavras.
Ela ameaçou ir atrás do homem de aura branca, mas Paul agarrou seu braço no último instante. Girando-a no ar e a arremessando na direção da escada. Isso poderia ter matado uma pessoa comum, Mas Paula não era uma mortal.
A jovem teria conseguido se reerguer, se Paul não tivesse lhe arremessado algumas pedras caídas da construção, que atingiram em diversos lugares. Enfim, a jovem, ensangüentada de um sangue aguado, caiu inconsciente no chão.
-Isso deve me dar algum tempo... – Ao olhar para trás, viu que o homem continuava correndo para longe, acompanhando a batalha acima de si. – Hey, espere por mim!
* * *
-Não adianta! – Inna agora gritava furiosamente, rangendo os dentes e cerrando os punhos. – Não conseguimos nem rabiscar a maldita porta de pedra!
-Temos que continuar tentando! – Alguém respondeu, mas a garota esta com raiva suficiente para não procurar saber quem era.
-Não! – Inna parecia não mais gritar, mas sim rosnar agora. – Paul é o único que tem chances de conseguir abrir passagem. Temos que ir atrás dele!
* * *
A aranha parecia crescer uns dez centímetros mais a cada segundo que se passava, mas isso provavelmente era uma peça pregada pelo pavor de ambos os dois jovens e os dois animais desmaiados no outro canto do grande salão.
Tie sentiu que, brevemente, suas pernas falhariam e ele cairia no chão pouco antes de ser devorado por um aracnídeo espiritual gigante.
Assim que sentiu o tremor que as patas grossas e peludas do animal causavam na estrutura antiga, suas últimas semanas passaram como um filme em sua cabeça. E então seus olhos começaram a enxergar, seus ouvidos começaram a ouvir...
Era como voltar no tempo...
“-Encarnados? – Micka curvara as sobrancelhas. – O que são Encarnados?
- Como eu disse, não sei. Mas, segundo a breve descrição de Madelynne, são seres com aura fria.
-Madelynne? – Tie enfatizou, era mesmo para ser uma pergunta.
-Alguma ancestral minha... Ela se chamava de “a bruxa das flores”, e era perseguida pela igreja, pelos Encarnados, e pelas sombras.”
“-Não! – Ele gritou, com uma voz séria e bizarra. – Eu era seu amigo, Tie. Mas a verdade é que você apenas me usou! Me usou para se aproximar de Mickaella!
-O que? – Tie não era o único que parecia confuso ali, mas apenas ele expressava. – Ficou louco? Eu e Micka nos conhecemos desde os seis anos de idade. É minha melhor amiga... Não preciso de ninguém para me aproximar dela, e eu não quero! Já somos próximos o suficiente!
-Não vou deixar que a roube de mim! – Riley bufava, seus olhos eram inexpressivos, e algumas veias eram visíveis em seus braços.
Ele realmente estava com raiva... Mas por quê? Transtorno bipolar?
Riley fechara o punho, e o avançava rapidamente em direção a Tie, mirando em seu rosto.”
“-Corre! – Inna sussurrou.
Tie a seguiu, dando meia volta e correndo na direção oposta a da mulher. Até serem impedidos por uma outra pessoa. Um rapaz loiro de cabelos cacheados e um corvo, o mesmo corvo que atacara os dois jovens há alguns instantes atrás.
O corvo imitava a situação do gato: Seu corpo estava se desfazendo! Algumas penas pretas flutuavam e rodopiavam ao seu redor, algumas simplesmente desapareceram. E, mais uma vez, o animal havia dado lugar a uma assustadora sombra.
-Inna... – Tie sussurrou em seu ouvido. – Não importa o que aconteça, corra! Corra como nunca correu em toda a sua vida! Enquanto fazem ‘eu sei lá o quê’ comigo você pode escapar.
-Qual é? – Inna riu mesmo nervosa. – Vai dar uma de corajoso bem agora?”
“-Também estou feliz em te ver, Isa... – Micka manteve o sorriso forçado por mais algum tempo. – Fiquei super feliz quando recebi a notícia de que viria para cá.
- Já imaginava... Você me ama, prima, não vive sem mim! – Isabella ri por um segundo.
-Modesta como sempre... – Tie não demonstrava nenhuma ponta de brincadeira em sua fala. Sua expressão séria era o que comprovava isto.
-Nossa, Mickaella, Não sabia que criava sua própria maritaca. – A jovem voltou a carregar a mala com rodas, e correu para o táxi que os aguardava antes que Tie pudesse ter a oportunidade de revidar. - Quem chegar por último é um Tie! – Ela implicou, enquanto iniciava sua própria corrida.
-Mais uma vez... Como conseguiu me forçar a vir? – Tie balançou a cabeça, em negativa, e seguiu para o táxi.”
Ele passou por tanta coisa. Todos passaram por tanta coisa. Eles não mereciam isso, Isa não merecia isso, May não merecia nada disso!
Por um momento, ele pensou em culpar Deus por tudo isso,Afinal, ele poderia ter impedido a criação desse maldito ritual, mas ele achou injusto. Quer dizer, se não fosse por Deus, será mesmo que eles teriam chegado tão longe? Eles estariam ali agora se não tivessem recebido uma ajuda divina?
Lágrimas se formaram em seus olhos e, pela primeira vez em muito tempo, ele as deixou cair. Tie gostou de sentir o líquido claro e puro escorrer por seu rosto, até se soltar e o abandonar.
Ele olhou mais uma vez para Mickaella, que chorava, agachada, no canto oposto ao que ele havia sido encurralado. Seus olhos se viraram mais uma vez, até encontrar a pequena coruja caída ao lado de Burnstein, também desmaiado.
Eram tão pequenos... E, no entanto, eles haviam salvo ele e seus amigos muitas vezes durante os últimos dias. Era como se uma pequena criatura como aquela portasse o dobro da força de todo o grupo junto. E velos no chão, assim, isso apenas intensificava a dor de Tie.
E Celly...
Talvez eles se encontrassem lá em cima, ou talvez ele vá para algum outro lugar. De certa forma, ele apenas fingia ter aceitado a morte. A verdade era que ele passava os olhos por todos os lugares em busca de alguma escapatória, mas não encontrava nada.
* * *
-Volte para cá, Sairrus! – O homem gritava enquanto corria, com Paul logo na sua frente.
-Não o chame! – Ordenou o garoto loiro. – É uma aura branca, tem muitas chances de vencer!
-E muitas de perder também! Eu não quero perder minha aura!
-Auras não morrem, ok? Elas podem ficar hibernando por algum tempo, para recuperar suas energias, mas sempre voltam! Elas... Sempre...
Era impossível falar de auras e monstros sem se lembrar pelo menos um pouco de Sturk, sua aura em forma de corvo que havia sido “destruída” por esse demônio.
Algo interrompeu o pensamento de Paul. Um grande buraco negro com raios sendo expelidos para todos os cantos.
-Agora assim! – Gritou o garoto, parecendo muito assustado. – Chame Sairrus ou ele será sugado! ANDE LOGO!
-Sugado?
-Sim, o grande morcego abriu um portal de volta para o seu lar!
-De volta... – O homem misterioso arregalou os olhos e olhou para a batalha acima. As duas criaturas voavam em direção ao buraco negro. – SAIRRUS, VOLTE AQUI AGORA! ESQUEÇA ESSE MONSTRO E VOLTE PARA CÁ!
Demorou um pouco para que a aura escutasse, mas enfim o globo branco parou a dois metros do portal e então percebeu em que se meteria caso não parasse.
Todos observaram a fuga do morcego. Assim que passou pelo buraco negro, outro grande raio atravessou o cenário, atingindo uma pequena cabana abandonada. E então, em uma fração de segundos, tudo desapareceu: O demônio, o buraco negro, os raios. Parecia apenas mais uma noite normal nos limites de Boston.
A aura desceu até o solo, transformando-se em um tigre branco mais uma vez e deitando ao lado de seu dono. Observou Paul por um segundo, como se fosse um agradecimento, e então, rapidamente, adormeceu.
* * *
- O que... – Paula levantou-se lentamente, com muita dor de cabeça e alguns arranhões profundos. – Onde todos foram? – Seus olhos notaram o estado da mansão. Estava bem diferente de como se lembrava. Bem, na verdade nem tanto, mas a sala dos móveis estava completamente destruída. – Paul? Mic...
Sua mente, enfim, voltou a funcionar corretamente. Ela precisava deter o morcego, mas o monstro já não estava mais ali, e então outro fato lhe atingiu, em fragmentos: Mickaella, prisão, Tie, aranha, jaula, pedra.
-MICKA! – Gritou, e então correu como nunca na vida, passando rapidamente pela passagem secreta ao lado da escada e chegando a um túnel de pedra com algumas lanternas acima de sua cabeça. Logo avistou os demais do grupo que tentavam quebrar a porta de pedra para que os jovens aprisionados pudessem sair de lá.
-SAIAM DA FRENTE! – Gritou, com seu coração acelerado. – ISSO JÁ FOI LONGE DEMAIS!
Seu primeiro soco causou algumas rachaduras e provocou a queda de pequenos pedaços de pedra. Seu segundo abriu uma pequena parte da porta. Não havia como alguém passar por ali, mas Paula pode ver a aranha se aproximando lentamente de Tie, com Micka agachada do outro lado. Seu terceiro soco foi certeiro: Bem no meio, o que fez com que a pedra inteira se partisse em mil pedacinhos.
Sem perder tempo, Paula entrou no grande salão antigo e correu para a cena que precisava impedir que acontecesse.
Em apenas alguns segundos, o que surpreendeu a todos, a jovem moça correu e fincou as unhas em um dos olhos da aranha, que recuou, fazendo um som que lembrava o grito de um porco.
Sem perder tempo, Paula correu outra vez, parando a apenas um centímetro da aranha. Estendeu as duas mãos e, com apenas um pouco de força a mais, arrancou uma das patas do monstro, deixando uma abertura horrível por onde vazou um líquido esverdeado e algo que parecia uma daquelas geléias de brinquedo. Outra vez, o aracnídeo gigante gritou.
-Paula? – Só agora Tie havia percebido que ainda estava vivo.
-MALDITA, NÃO MECHA COM MEUS AMIGOS! – E, com um último salto, essa parou na cabeça da aranha, onde socou com toda sua ira. Sua mão atravessou o animal, saindo do outro lado com líquido verde entre seus dedos e partes de algo que parecia um cérebro grudado ao longo de seu braço.
Com mais um som agonizante, o grande e aterrorizante monstro caiu no chão, seus olhos espumando, se desintegrando aos poucos. Quando desapareceu por completo, uma grande nuvem negra surgiu no lugar e se desfez com o vento.
Aquela aranha não era um monstro... Era a aura da dama das aranhas. Melhor dizendo, era a sombra dela. Deve ter se sentido mal por não ter conseguido salvar sua dona a tempo e se transformou nesse monstro. De qualquer forma, agora estava tudo acabado.
-MÃE! – Com uma terrível tremedeira, Micka se levantou e correu para os braços assustados da mãe, que chorou ao ver que a sua filha estava viva.
-Filha... Como é bom... Ver você...
-Está tudo bem por aqui? – Paul passou pela porta caída e ficou feliz ao ver que todos estavam bem. Por algum motivo, ele havia “esquecido” sua verdadeira missão. Ele queria realmente que todos estivessem bem, e não só por causa do ritual.
-Agora está! – Inna escondia sua raiva, como sempre, tentando parecer durona. – Paula chegou bem a tempo e salvou o dia.
-Isso é bom... – Seus olhos vasculharam cada centímetro do salão, até encontrar... – Tie, a sua coruja está desmaiada!
-Sim, ele e Burn... – Os pelos do braço do garoto se arrepiaram. O gato não estava mais ali, só havia a sua ave e alguns pedaços da construção que haviam se desprendido. – O que? O felino estava aqui! Eu tenho certeza!
-Relaxe, Com certeza aquele gato safado deve ter voltado para casa.
-Estão todos bem? – May tentou falar o mais alto que pode, mas sua voz, devido ao nervosismo, falhou varias vezes.
-Creio que sim... – Agora era Riley quem falava. E, pela primeira vez e muito tempo, todos perceberam que ele ainda existia. – No entanto, onde está Marianne?
-E Corbin! – Lembrou-se Jennifer.
-Eles devem estar bem. – respondeu Paul, coçando a cabeça. – Bem, vamos sair daqui...
-Vamos para casa! – Inna bufou. Isso significava que ela estava bem, mas realmente parecia uma ótima idéia.
-Vamos nessa... – Paula desceu do animal, ofegante e com um tom avermelhado nos olhos, e limpou seu braço em sua roupa.
-Muito obrigado! – Tie a abraçou com força. Ele mal podia acreditar que, dentre tantos amigos ali, era Paula quem o havia livrado da morte certa. Mas então se lembrou de algo. – Hey... – E então se soltou dos braços da garota.
O garoto correu para o canto esquerdo próximo a saída e pegou sua coruja no colo.
-Você vai ficar bem... Paul...
-Vai ficar bem sim. – O rapaz sorriu, e então encarou Micka por dois segundos antes de finalmente falar: - Vamos embora!
3 dias depois...
Olá, Como você está? Quanto tempo eu na venho aqui...
Eu posso dizer que estou bem melhor agora, todos estamos. Por sorte, a cidade não foi muito destruída. Parece até que nunca saímos realmente de Boston.
Assim que saímos da maldita mansão e o carro resolveu voltar à vida, Paul resolveu nos levar a uma emergência para que nos fizessem curativos. Ficaram horrorizados não com a gravidade dos machucados, pois não eram tão intensos assim, mas o que realmente lhes chamou a atenção foi a quantidade.
Isa, a prima de Micka, mandou uma carta para os pais dizendo que estava tudo bem, apesar de todo o ocorrido. Na carta ela contava dos machucados, mas inventou uma história maluca onde todos nós tentávamos andar de Jet Sky com rodinhas no meio de um mar de pedras. Com sorte, eles disseram acreditaram em tudo na carta-resposta.
Bem, tentamos voltar a vida normal (ou chegar bem próximo dela) . Amanha retornaremos a escola e Jennifer voltará a seu trabalho normal. Prometemos uns aos outros que vamos ficar sempre de olho aberto. Hoje mesmo eu fui caminhando até o veterinário para que ele tirasse todas as pulgas que Thor pegou no meio daquele matagal de beira de estrada.
O estranho é que ninguém sabe onde Marianne, Corbin e aquele estranho homem e seu tigre branco se meteram. Paul está em estadia na casa de Tie e conseguimos convencê-lo a ir para a escola conosco. Celly também não deu mais as caras por aqui, e nem mandou sinal algum. Nem mesmo Inna tem sonhado com ela.
Riley foi o único que resolveu partir. Aproveitou que seus pais estavam se mudando para Vancouver e resolveu ir com eles. O estranho é que ele não se despediu de Micka, apenas mandou um bilhete onde se lia “Prefiro acabar com tudo.” . E, mais estranho ainda, a garota ficou feliz por isso.
A notícia boa é que eu prometi a mim mesma que aproveitaria cada momento com meus amigos, já que não sei o que o destino guarda para mim. Se esse ritual todo estiver certo, eu morrerei na guerra do Eclipse. E eu não sei quando isso vai acontecer, então preciso me divertir o máximo possível!
Mas, uma coisa ainda me atormenta...
Tie me contou de suas visões... As visões que teve enquanto a mulher louca das aranhas o prendeu em outra realidade. Ele viu Paul tentando ajudar minha mãe, e viu que estavam vindo atrás de mim e de minha avó... Mas...
Eu estou viva... E no diário consta apenas a morte de minha avó. Será possível que...
Ah, quer saber, depois eu penso nisso. Agora eu preciso ir, Inna me chamou para ir ver algum filme no cinema. Tenho que aproveitar, já que essa garota nunca quer sair de seu cantinho escuro em seu quarto.
Bem, depois nos vemos então...
Agora eu vou tentar me lembrar de como uma pessoa normal vive. È isso aí, deseje-me sorte! Até mais, amigão, te vejo mais tarde!
Ah, só mais uma coisa, lembre-se sempre dessa palavra: esperança!
Agora assim, tenho que ir antes que Inna corte meu pescoço. Desejo a você um ótimo dia!
Com amor,
May Richard Crommwell. – A bruxa da fé.
A última nuvem (parte 1) (3 de 3 - Fim de Temporada)
>> A última Nuvem : Parte 1
-SSHHHRIIIEEEEK!
Todos olharam instantaneamente para a sala dos móveis. Eles sabiam muito bem o que produzia esse som, embora não quisessem o ouvir exatamente agora.
-Paula, nós somos mais fortes que os outros, - Começou Paul. – Ficamos aqui e tentamos deter o demônio! Riley, Inna, May, Jennifer e Isa, vocês voltem de onde viemos e tentem descobrir como se abre aquela... Pedra.
-Certo! – Disse Inna, dirigindo-se a uma pequena passagem quase imperceptível ao lado da escada. – Vamos pessoal!
* * *
-CUIDADO! – Micka empurrou Tie com força quando o monstro lançou sua estranha teia na direção do garoto.
-BURNSTEIN, FAÇA ALGUMA COISA!
A aura negra avançou sem medo para o animal. Seu núcleo em forma de globo chocou-se contra o monstro, que se recolheu um pouco, e a fumaça que o cercava começou a cobrir a criatura como um casulo.
-Está dando certo? – Perguntou Mickaella, meio que para o vento.
Logo a aranha voltou a sua posição de ataque, batendo com força sua cabeça na sombra e fazendo-a parar do outro lado do salão. Burnstein, já em sua forma felina, parecia desacordado.
-Olhe! – Apontou Tie, embora não precisasse, para mostrar que o monstro dirigia-se para o gato nocauteado. – Ela vai matar Burnstein!
-Faça alguma coisa!
-Coruja...
A aura azul avançou rapidamente na direção dos dois animais, pondo-se entre ambos bem no momento que a aranha preparava suas presas. Em uma tentativa de ataque, a coruja começou a produzir sua luz azulada ofuscante, mas o monstro já esperava por isso. A aranha saltou, usando suas patas para se agarrar ao teto e ir em direção aos adolescentes, que começaram a bater desesperadamente na grande pedra que bloqueava a saída.
-NOS TIREM DAQUI! – Gritavam.
* * *
-SHRIIIIIEEEEEK!
O grande monstro saiu lentamente da sala dos móveis, quebrando uma parte da parede antiga que caiu no chão.
Paula se colocou em posição de ataque, mas permaneceu parada por muito mais tempo, enquanto Paul avançou contra o demônio, que esquivou facilmente.
-Mas que droga! – Gritou o garoto de olhos azuis meio segundo antes de bater em cheio contra a parede quebrada.
Paula não conseguia se mover. Seus músculos não a obedeciam. Ela parecia ter virado pedra...
-Sairrus, ataque!
Ao comando do homem desconhecido, o grande tigre branco avançou na direção do grande morcego, transformando-se em aura no meio do caminho. O que fez Paul e Paula terem de fechar os olhos por um instante.
Diferentemente de Sturk ou Burnstein, essa fazia a vista doer de tão clara que era. Era praticamente impossível encarar seu núcleo em forma de globo, já que o mesmo produzia uma magnífica luz branca e um pouco forte demais para olhos humanos.
A aura se chocou contra o peito peludo e esquelético do demônio, que foi arremessado com força para trás, voltando à grande sala dos móveis.
O som de muitas tábuas se quebrando foi o suficiente para fazer com que a consciência de Paula retornasse à vida. A garota observou o ambiente por rápidos e confusos três segundos, e então encarou a criatura caída no chão a poucos metros de distância. A garota percebeu que havia algo rondando o ar acima do monstro... Uma aura!
-Magia branca... – Sussurrou, com uma voz rouca, enquanto seus olhos conseguiam um vago tom avermelhado em seu núcleo.
-Paula... Paula... – Gritava Paul, enquanto se levantava lentamente e entre gemidos. Ele sabia muito bem o que estava acontecendo. – Essa não... Isso não é hora para se ter a primeira recaída...
-O que está havendo? – Perguntou o homem, dono do tigre branco.
-Se afaste! – Ordenou como resposta. – Esta tendo uma recaída. Isso é quando algum de seus sentimentos humanos se intensifica e toma conta de sua mente!
-E o que ela está prestes a sentir?
-ISSO! – rosnou a garota, dando uma volta em torno de si mesma com uma das pernas levantada. Essa acertou em cheio o rosto bronzeado do homem de jaqueta de couro preta, que secou o sangue escorrendo do canto de sua boca.
-O que essa louca...
-Ela não controla o que faz! – Advertia Paul, esquivando-se do segundo chute que, dessa vez, foi direcionado a ele. – Ela está respondendo aos seus novos instintos... E o principal deles é matar!
-Mas que ótimo! – Ironizou o homem.
Os trinta segundos que levaram na conversa os distraiu, e quando voltaram a si perceberam que o morcego tentava dilacerar o pobre tigre, que continuava a atingi-lo, ainda em seu formato de aura branca.
* * *
-BURNSTEIN! – Gritou Mickaella, desesperada, enquanto o ser gigante lançava suas estranhas teias para todo lado. Por sorte, nenhuma delas havia se enroscado nos jovens.
O gato, como aura, avançou rapidamente, chocando seu núcleo global na cabeça da aranha, que fez um som parecido com um gemido, mas então continuou avançando na direção dos adolescentes.
- CORUJA! AJUDE-NOS! FAÇA ALGUMA COISA! – Implorou Tie, enquanto empurrava Micka para um lado e se jogou para o outro no exato momento em que o monstro cravou os dentes na porta de pedra.
-ANDEM! – Micka correu para o outro canto da sala, enquanto Tie correu para o outro canto. Se fosse para morrer, pelo menos que confundissem a maldita aranha antes!
-ALGUÉM QUER ABRIR ESSA PORTA? – Gritava ele o mais alto que podia... Inútil! –Por favor...
-continua...
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Episódio 15 (2 de 3 - Fim de temporada)
“Acorde com um sorriso, levante com um suspiro, desperte com um beijo.”
-O dia está tão lindo... – Disse, em um tom casual, enquanto encarava uma linda e grande árvore da lua. – Como estão seus hospedes hoje? – Eu me referia aos pequenos pássaros que construíam um ninho em um de seus galhos mais baixos.
-Querida, o lanche está pronto! – Gritou minha mãe, de nossa cozinha.
-Já estou indo! – Disse, e abri um imenso sorriso ao sentir o cheiro de seu famoso bolo de laranja. Bem, famoso pro meu estômago. – Bem... – Encarei mais uma vez o ser-vivo fixo bem na minha frente. – Tenho que ir!
Nesse instante, senti uma gota doce se chocar contra uma de minhas bochechas. Outro sorriso se abriu, e em meus olhos nasceu a ansiedade. Eu queria sentir aquela chuva. Abri os braços, e então o céu deixou que suas lágrimas tocassem o meu corpo.
No rádio, uma conhecida música do Michael Jackson parecia dançar conforme meus passos sob a chuva: “You are not alone ( Single version).”
Eu tinha a vida perfeita, e esse dia me comprovou isso. O tempo se acostumava aos meus desejos.
Gostaria tanto de voltar no tempo... Queria sentir aquelas lágrimas mais uma vez. Queria poder sorrir para minha árvore preferida, minha melhor e solitária amiga. Queria estar com minha família...
Como será que eles estão agora?
...2 meses depois...
-Espero que estejam bem... – Sussurrou Isa, enquanto encarava o gigante portador dos machados. Seus olhos não desviavam do espírito mercenário nem por um segundo sequer.
Do outro lado da jaula, Micka e Paul ainda tiravam dúvidas um do outro em questão aos últimos dias.
-Espíritos mercenários acreditam que a ausência do amor em suas vidas seja culpa de Deus, - Continuava o garoto loiro. – Por isso não suportam quando alguém começa a falar dele.
-Isso é horrível! Quer dizer... Não faz sentido.
-Tente explicar para ele! –Sorriu, apontando com o nariz para a criatura/vigia que ainda segurava firme um dos machados. O mais aterrorizante de todos.
Era um grande machado negro com algumas partes vermelhas. Queriam muito acreditar que o vermelho era tinta.
-Paul... Você já encontrou um amor?
O rapaz abaixou a cabeça e começou a rabiscar o chão com o dedo. Havia muito tempo que ninguém lhe perguntava nada parecido com isso. Embora fosse um encarnado, um coração ainda batia em seu peito. Muitas vezes, ele descumpriu as ordens de Marianne por mágoas passadas relacionadas ao amor. Mas, é claro, ele nunca contaria isso para ninguém.
-Eu prefiro acreditar que não... – Respondeu, enfim, encarando mais uma vez a garota que lhe causava certa sensação estranha.
Micka o abraçou, e um frio sobrenatural surgiu em ambos. As mãos femininas começavam a suar, enquanto as outras as apertava suavemente, e seus olhos finalmente se fecharam.
-Não ignore o que Deus lhe deu, só porque o homem lhe tirou! – Completou Mickaella.
Esta era uma experiência muito difícil. Ninguém mais agüentava ficar preso naquele inferno de jaula.
Paul suspirou.
* * *
-Isso não te interessa no momento! – Respondeu o homem, revirando seus olhos e voltando-os para seu grande mascote. – Sairrus, acabe com ela!
O Tigre expôs suas grandes presas em um rugido, e então, sem pensar duas vezes, a ação começou.
-NÃO! – Gritou May, assustada, enquanto as lágrimas escorriam freneticamente por seu rosto sujo. Ela quase enlouqueceu quando algumas gotas de sangue respingaram em sua roupa.
O animal estava fazendo um belo trabalho. Logo, não havia mais vida nenhuma naquele corpo arrebentado que ocupava espaço no antigo chão.
* * *
Um grito assustador preencheu a atmosfera. Occino, o gigante, estava caindo de joelhos no chão. Suas mãos e suas pernas estavam se desfazendo. Desaparecendo, literalmente. Logo abaixo dele,formava-se uma poça negra de sangue demoníaco.
-Para trás! – Ordenou Paul, ajudando Micka a se levantar e colocando-se a sua frente.
Logo só o que restava eram suas unhas, uma enorme calça rasgada, e diversos machados maiores do que qualquer um no grupo. Paul se aproximou de algumas grades, para ver um pouco melhor o que estava havendo.
-O que houve? – Perguntou Tie, enquanto sua coruja e Burnstein saiam com facilidade da jaula.
-Bem... A doida aracnídea não faz mais parte desse mundo! – Respondeu com um sorriso. – Ela, e seu amigo mercenário, estão literalmente mortos!
-Mortos?
-Sim, quero dizer exatamente isso! Estamos livres, vamos! Não podemos mais perder tempo!
-Ah... – Inna se encolheu ao lado de Paula e Tie assim que viu algo estranho perto do seu lado da jaula. – Na verdade, temos um novo problema!
Estava no canto de trás esquerdo: Muitas aranhas. Milhares dela. Estavam todas se amontoando, formando, aos poucos, um novo ser vivo. Onde elas subiam, nessa nova criatura, grudavam e formavam uma nova parte dela.
-Abra a jaula agora, Paul! – Disse Paula, ficando mais horrorizada do que antes. – Se continuarmos presos aqui não teremos nenhuma chance! Estamos sem espaço!
E então foi! Paul chutou a porta de grades bem no meio, fazendo ir parar longe.
-VAMOS! SEJA O QUE FOR, ESTÁ QUASE PRONTO!
Todos saíram correndo, feito desesperado. Passaram pela abertura de pedra assim que Paul e Paula trabalharam juntos para abri-lo. Em alguns segundos eles conseguiram sair do estranho salão. Haviam, de algum modo que ambos não haviam entendido, voltado para a entrada da mansão. A porta de pedra se refez e se fechou logo atrás deles, com um horrível estrondo.
-May! – Gritou Inna, e correu para abraçar a amiga que chorava. Ignorando completamente o tigre branco que rugia e o corpo sem vida no chão.
-Esperem! – Gritou Paula, chamando a atenção de todos. – Não estamos esquecendo nada?
-O que? – Inna desfez o abraço em um salto, ainda sendo possuída por uma tremedeira surreal.
Um frio percorreu a espinha de Paul.
-Onde estão Micka e Tie?
Todos se entreolharam.
-E Burnstein e aquela coruja também não estão aqui! – Completou Inna.
* * *
-SOCORRO! – Gritava Tie, enquanto batia inutilmente na grande pedra.
-NOS TIREM DAQUI. – Micka tentava, sem sucesso, prender as lágrimas que tentavam escapar de seus olhos.
Logo o novo ser havia ganhado, de fato, a vida. Era uma grande aranha azul e preta
Um pouco maior que Occino, e em sua cauda havia um enorme ferrão negro e reluzente que parecia ter sido polido para a ocasião. E suas presas... Bem, eles deveriam evitá-las a qualquer custo.
-O que vamos fazer? – Perguntou Micka, enquanto ela, Tie, e os mascotes, se viravam para encarar a aranha gigante.
-Rezar para que não tenham lhe feito um estômago!
Os dois animais se transformaram em dois globos de luz cercados por fumaça. Um negro, e outro azul.
-Temos que enrolar até alguém nos tirar daqui!
Micka Assentiu. Não tinha nada mais a se fazer.
-Vamos!

