Lua escura - Parte 5

Parte de meu cérebro estava inacessível. Na verdade, a palavra certa era inviolável. Após tanto sofrimento ao lado de bruxos, anjos, espíritos e demônios, decidi que seria melhor para minha própria mente que eu “esquecesse” de tudo e nunca mais tocasse no assunto, independente do que acontecesse.
Tudo estava indo como planejado, e minha sensação de normalidade durou pelos próximos trinta minutos, quando a lua subiu ao céu solitário da cidade. Pelo que parece, a guerra espiritual lançou seus tentáculos para lugares que até a própria May nunca pensaria em investigar. Quem diria que teríamos ajuda de nossa decente, pura, e ingênua professora de sociologia?

---- Mickaella:

— Marianne? — A voz de Paul ecoou na entrada deserta do posto de gasolina. — Por onde esteve? E... Quem é a sua amiguinha?
— Alguém que arrumei para me ajudar em minha missão, já que o meu fiel companheiro resolveu colaborar com o oponente...
Com um arrepio desconfortante, percebi que nós éramos os tais oponentes. Marianne, estranhamente, nos queria vivos. Não, ela queria May viva, para que a pudesse sacrificar durante a guerra final. Mas... O que éramos nós? Eu realmente não entendia o motivo pelo qual esta esnobe dama de alta classe não havia ainda acabado com nossa raça. E isso, sim, acabava comigo.
— Percebi que estava do lado errado...
— Sim, você é o típico romântico incorrigível que escolhe ajudar aos “amigos” do que receber a própria libertação espiritual... — Ao dizer a palavra amigos, ela realmente tentou reproduzir as aspas com os dedos.
— Pode-se dizer que sim, Marianne... — Paul balançou a cabeça, em negativa, com um sorriso sarcástico no rosto. — E faço isso porque eu tenho amigos! E, quando digo isso, não estou falando apenas de um medíocre gato preto que mal liga pra minha existência. Eu falo de humanos, que mesmo sabendo desde o início de meus propósitos, ainda assim dariam sua vida por mim.
— Fique com eles, Paul. Fique até o momento em que você for descartável e te substituírem como fizeram com aquele maldito Riley...
O nome me fez gemer de angústia. Por um momento, pensei como ele estaria reagindo a esta terrível noite, sozinho. Lembrei-me então que ninguém havia avisado a ele os perigos do Halloween. Meu pavor dobrou de tamanho. Mas a discussão entre os dois encarnados continuava à minha frente:
— Quer dizer como você, não é? — Paul ficava cada vez mais vermelho, talvez de raiva. Seus punhos estavam cerrados, e seus olhos tão fixos em Marianne quanto os de uma coruja. — Enquanto eu cumpria suas ordens, protegendo o grupo do demônio das sombras, você fugia sei lá pra onde com o seu lindo e domesticado mascote!
— Você sabe muito bem que este não é o problema, Paul... Se tentasse me encontrar, sabe que me encontraria. Mas preferiu essa gente imunda! Hã... Mas você sempre foi assim... Desde a nossa geração! Ficou ao lado de Cloe e Celly... Max morreu por sua culpa! De todos vocês!
— Max morreu pelo simples fato de não acreditar no mundo a sua volta! — Agora, o garoto loiro literalmente berrava, como se ele fosse um copo de vidro e estivesse sido cheio com sua última gota de água. — Caso não se lembre, Mary, foi você quem o entregou à serpente e o deixou ser devorado quando viu que ela estava se aproximando!
—CALEM-SE! — A voz feminina de Celly chamou a atenção de todos nós, que agora a encarávamos perplexos.
Com um longo e solto vestido branco, que cobria suas pernas e impedia que víssemos seus pés, que parecia ser feito do tecido mais leve e confortável que já vi, a anja se aproximou do grupo. Seus cabelos estavam diferentes: agora eram castanhos e ondulados, e deveriam chegar a sua cintura. Seus olhos refletiam um lindo verde concentrado, que agora encarava sério as duas figuras que discutiam.
— A geração de vocês já passou! E, sinceramente, ninguém aqui liga muito para isso. — estranhamente, Celly ainda tinha poder. Eu o sentia, e era reconfortante. Quase me fazia querer sorrir. — Agora me escute, Marianne, não ouse interferir no destino! Se fizer algo contra May ou seus amigos, lembre-se que papai está olhando você, e eu duvido que ele permita que você entre em seu reino!
— E você, quem é? Uma maldita anja que eu mesma terei o prazer de mandar para o inferno! — Mesmo sabendo que nada poderia fazer, fiquei realmente nervosa quando Marianne, com suas unhas à mostra, avançou na direção de Celly, que sorria calorosamente para ela.
Quando pensei que a anja faria alguma coisa, Inna reagiu primeiro, o que me assustou. Minha amiga gótica já havia matado, a bem dizer, duas “pessoas” esta noite, e eu tinha que ela se arrependeria amargamente no dia seguinte.
—DEIXE CELLY EM PAZ! — Gritou, saltando em cima da mulher de vestido colado. As duas rolaram pelo asfalto, até pararem do outro lado, onde Inna literalmente socava a face de sua oponente inúmera vezes. Pela primeira vez em toda a minha vida, eu vi sangue saindo do corpo fraco de Marianne.
A mulher, enquanto apanhava, esticou o braço para algo que estava praticamente ao lado dela. Quando percebi do que se tratava, Paul já havia entrado no combate: Enquanto Inna paralisava a dama, o rapaz puxava o seu braço, retirando uma larga pedra pontuda de sua mão. Senti outro arrepio. Se Marianne tivesse acertado minha amiga com aquilo... Bom, então ela ficaria definitivamente ao lado de sua protetora anja, o que seria triste para todos nós.
Com uma imensa frieza, Inna se levantou e chutou com força o pescoço da dama. Ouviu-se um doloroso crack, e o corpo caído no chão parou de reagir. Após alguns segundos, a mesma mulher se desintegrou em uma grossa fumaça negra.
— Materializado? — Perguntou Paul, que parecia tão surpreso quanto eu.
— Merda. Tanto esforço para nada! — reclamou Inna, cruzando os braços enquanto Chilly escalava até seu ombro.
— Esperem um só minuto! — Pedi, pousando as mãos sobre a testa por alguns segundos. — Alguém pode me explicar o que está havendo? E... Porque não me lembro de nada disso em meus outros dias das bruxas?
Celly, com sua calma iminente, se aproximou de todos nós de forma tão leve e natural que me pareceu por um instante que o vento a carregava. Minha pele formigou quando uma de suas mãos tocou meu rosto... Quero dizer... Sua pele era como seda quente de tão lisa e confortante.
— Oh, minha jovem, gostaria de poder responder a sua pergunta... — Disse, e dessa vez senti uma leve pitada de preocupação em seus olhos. — Mas a verdade é que nem eu sei a resposta para isso. Nada disso está certo, querida. Antes de obter suas respostas, preciso descobrir como os mortais conseguem ver tudo que está acontecendo...
— A prioridade agora é encontrar meu filho! — disse a professora, com um olhar tão reprovador que senti minhas pernas bambearem um pouco. — Vamos procurar pela cidade inteira se for preciso. E começaremos imediatamente!
— Paul e Micka podem te ajudar com tal tarefa. — Afirmou Marianne, piscando para a mulher de aura revolta. — Mas gostaria de ter uma pequena conversa com estes três aprendizes... — Agora, ela alternava o olhar entre Inna, May e Tie. Sim, eu me senti um tanto excluída com isso, mas apenas a obedeci: Aproximei-me de minha professora ao mesmo tempo em que Paul o fez e observei enquanto a anja a nossa frente desaparecia, junto a meus três amigos e um animal, em um clarão branco de luz.
Os próximos minutos se resumiram em planos. Eu e Paul procuraríamos pelas residências abandonadas, enquanto a mulher passaria de igreja em igreja. Sim, eu também não entendia o que espíritos materializados poderiam fazer em uma igreja vazia em plena noite de halloween, mas resolvi não discutir. Já havia feito o suficiente para chatear aquela mulher.
— Uuuurrr... Uuuurrrr... — Piou algo de cima de um dos postes, estendendo suas asas e se aproximando do solo enquanto rodopiava ao nosso redor.
— Owllie? — Paul pareceu um tanto mais surpreso do que eu. Talvez até assustado, se observasse seus olhos com atenção. — Não deveria estar ajudando os outros a distrair Occino?
Meu coração saltou por um único, longo e medonho segundo. Quero dizer, todo e qualquer tipo de ser está sem poder nenhum enquanto um gigante do mundo dos mortos corre pelas ruas semidestruídas de Boston fazendo sabe-se-lá-o-que com quem encontra pelo caminho.
— Filha!
Virei-me para a esquerda e encontrei três silhuetas apressadas carregando algo que mais parecia uma mochila pesada. Graças a Deus, isso queria dizer que minha mãe estava sã e salva.
— Peguem! — Paula lançou o que quer que estivessem carregando e Paul, por pouco, não o deixou cair — Abram!
Aguardei até que o garoto loiro o fizesse e o observei tirar alguns objetos estranhos de lá. E isso incluía uma estaca de madeira e alguns bastões muito parecidos com aqueles utilizados pelos policiais. Ele me jogou um desses, apesar de eu nunca ter jogado beisebol em toda a minha vida. Enfim, pendurou a mochila em um dos ombros e disse:
— Como está a situação pelo caminho?
— Terrível... — respondeu Isa, guardando em seu bolso algo que parecia um isqueiro. — Calçadas não existem mais, casas pegando fogo ou simplesmente desabadas e fomos perseguidas por cinco pessoas diferentes. Sem falar que fomos atacadas novamente por aquela mulher medíocre que controla as aranhas. Teríamos morrido se aquela senhora, Madellyne, não tivesse chegado bem na hora.
— E isso não é tudo! — Gritou Paula com os braços cruzados, como sempre fazia quando estava frustrada com algo ou queria atenção de alguém. — Havia corvos na casa de Jennifer, e eles tentaram... Devorar-nos! Bem, pelo menos eu acho. Era como se eles fossem dezenas de chaves e outros objetos de metal voador e nós três fossemos um conjunto de imãs gigantes com pernas e braços!
— E aqueles idiotas quebraram o último conjunto de esmaltes fosforescentes que eu trouxe para Boston! — Rosnou Isa, agora batendo com um dos pés no chão. E só então percebi que ela usava sua bota negra de salto que se erguia até a canela, que eu não via há muitos anos. — Sem falar que meus batons vermelhos estavam juntos com aqueles malditos potinhos coloridos!
— Escutem, escutem! — Chamou Paul, para que ambas as garotas parassem de tagarelar tanto. Pela primeira vez na noite toda, eu agradeci a ele por algo que fez. — São meia-noite e meia. Isso quer dizer que os mortos só têm mais meia hora de liberdade até que os portais se fechem!
Portais...
Certa vez, em meio a uma conversa na velha mansão abandonada, Paul me disse que todo e qualquer portal se abriria para o nosso mundo durante a guerra do eclipse. Por um segundo, imaginei como serão as coisas quando os espíritos aprisionados — aqueles que não têm permissão para vir a este planeta — estivessem perambulando por aqui junto a anjos, demônios e encarnados lutando pela própria “sobrevivência”. A imagem de milhares de Occinos juntos a centenas de materializados não agradou muito minha barriga, pois ela começou a se remexer.
— Onde estão May e os outros? — Perguntou minha mãe.
— Com Celly. — Respondi. — Não sabemos para onde foram ou porque apenas os três foram com ela... — Revelei, ainda me sentindo excluída por tal acontecimento. — Mas devem estar seguros com ela.
— Precisamos nos esconder por algum tempo até que tudo volte ao normal. — sugeriu Paul. — Provavelmente não se lembrarão de nada disso daqui a alguns minutos, então não se preocupem!
— O que? — Gritei, adicionando um tom de injustiça à atmosfera. — Vamos esquecer de tu... Espere, e você?
— Sou um encarnado, Micka, — Lembrou-me o rapaz loiro. — Já sei de muita coisa que não deveria saber. Os anjos do tempo não se preocupam mais comigo... Não sou mais vivo para que escondam algo de mim.
Percebi que ele não se orgulhava disso, assim como eu estava realmente irada por saber que alguém tocaria em minhas memórias. Mas Paul parecia bem pior do que eu. De certa forma, acho que ele gostaria de estar realmente vivo. Vivo como... Qualquer um de nós. Nós, que não damos valor ao que realmente importa. Nós, que vendemos a vido por coisas tão superficiais... E, de alguma forma, na disso importa na hora que deixamos este mundo.
Nós... Não levamos dinheiro, diamantes, celulares... Nada. Não seremos ninguém mais uma vez. Ah, percebi o quão egoísta tenho sido durante toda a minha vida. O quão egoísta todos tem sido. Ninguém enxerga o que devemos mesmo dispensar e o que devemos aprender.
Agora, olhando para a face arrependida por trás daqueles olhos azuis que tanto me atormentavam, percebi o que estava faltando...
Paul estava em uma bela emboscada... Uma armadilha própria mais perigosa do que a que qualquer um de nós pensou em um dia possuir. Ele, preso a este mundo para sempre pelo simples fato de nunca ter a devida coragem para cumprir sua missão.
Não, ele nunca faria isso...
Nunca tocaria um dedo em May que fosse para feri-la...
Jamais...

(continua...)

O quarto do Tie:

------ Tie:

Senti o frio percorrer todo o meu corpo assim que abri a porta de meu quarto. Olhei ao redor, havia algo de muito errado aqui...
- Tie... - Sussurrou uma voz às minhas costas, fazendo meus pelos se eriçarem quase imediatamente. - Hayley está com problemas, e precisa de sua ajuda!
Girei em cento e oitenta graus e encontrei os olhos frios e preocupados de May, que segurava com força seu diário de couro como se o vento pudesse levá-lo embora a qualquer instante.
- Teve contato com Hayley? aquela Hayley da escola paranormal? O que... O que houve? - Observei as lágrimas da menina se prendendo em seus olhos, tentando evitar sua queda.
- A guerra começou, Tie... - Disse, por fim, deixando o líquido cristalino escorrer por seu rosto gelado. - Precisa entrar no blog "Elementares" e entrar em contato com ela! IMEDIATAMENTE!

Cavalos Alados - Jorge Castro

Senhor... Porque não fazes de minha vida um sonho?
Diga-me, ó pai, por que fizestes tudo tão real?
Porque não me crias um lugar que puxe meu sorriso tanto quanto a minha mente?
Caso não tenhas percebido, aspiro por magia, cada dia mais.
Vivo apenas pelo surreal, o impossível.
E, no entanto, vejo-me contentando-me com uma máquina cinzenta.
Um ser robótico que, incrivelmente, fornece-me ar...
Seu ar sem cor e sem voz, que tenta me manipular assim...
Se me tiras a magia, ó pai, tira-me mais que a vida.
Assim, sem escudos reluzentes, sinto-me mais que vulnerável.
Sem minha humilde rocha d’água, sou incapacitado de guerrear.
Guerrear contra a monotonia que se alastra com tentáculos nas sombras.
Guerrear pela luz do cetro que flutua dançante sobre a floresta esquecida.
E, ainda assim, percebo que me foi tirada a espada,
Roubada, dos trovões, a adaga. E levada, do mundo, a mágica.
Reparo, então, no pequeno canto cinza que luto para que se vá.
Mas, como o resto da tempestade, o pequeno insiste em ficar.
E, sem meu cetro ou a pedra d’água, não posso sequer tentar.
Senhor, ainda assim, te suplico...
Não tire a mágica que sinto, ou sei que não vou mais voltar.
Devolva-me o escudo polido, eu suplico, que com o cetro eu ei de usar.
Purifique a espada cansada, pai, antes de o cetro me tirar...
E me faça uma nova pedra, senhor, que a antiga sem mágica está.

Lua escura - Parte 4

Meu estômago se remexia de tempos em tempos, ameaçando me devolver meu almoço daquele mesmo dia. Se eu pudesse, voltaria no tempo. Para, exatamente, três semanas atrás, e então teria ignorado a minha maldita vontade de jogar com os espíritos.
Sinto-me tão idiota... Sei que, segundo a lenda, tudo isso estava prescrito para acontecer, mas sei também que aquele jogo piorou muito a história para o nosso lado. Tudo seria mais fácil... Ainda teríamos alma. Não essa que adquire a forma de um animal qualquer e possui uma cor própria, mas aquela espécie de luz que cerca nossa matéria, nosso corpo.
Mas eu tinha mesmo que estragar tudo... É tudo culpa minha... Tudo isso. E agora eu pagaria cruelmente pelo estrago que fiz.

------- Inna:

— Vamos, rápido! — gemeu Mickaella, enquanto arrastávamos uma segunda estante para bloquear a porta. Após cinco minutos de tensão e suor, conseguimos arrastá-la, assim como a primeira.
— Deve haver uma porta dos fundos. —Sugeri, ouvindo mais alguns ruídos provocados pela serra elétrica que a mulher de cabelos loiros e olho cinza-claro portava do lado de fora da construção. —O que faremos? Se eu tentar falar com Tie mais uma vez, vou desmaiar. E então será você tentando fugir e me carregar.
— Precisamos apenas de uma distração... Algo que a deixa ocupada enquanto pensamos em um jeito de fugir. — Outra vez o som encheu o ambiente, e as duas estantes de madeira balançaram, juntamente com a porta de aço. — Graças a Deus decidiram fazer uma loja de cimento, e não com vidraças. — E então se ouviu um grito seguido por um choro, uma criança. Havia uma criança lá fora, e não deveria ter mais de cinco anos.
Eu e Micka nos encaramos, completamente assustadas. Não poderíamos deixar que uma tão inocente alma morresse por algo que não merecia. Por algo que não foi ele quem provocou. Assim que minha amiga de cabelos com pontas verdes começou a mover os lábios, eu já sabia exatamente o que ela diria:
—Vamos nos arriscar!
Sem perder tempo, arrastamos para o lado às duas estantes que nos serviram como proteção, e chutamos juntamente a porta dupla, saindo para um lugar repleto de tanques de gasolina e outras coisas explosivas. Mas, curiosamente, não havia ninguém lá.
A noite estava mais uma vez em completo silêncio. Alguns grilos cantavam aqui e ali, provavelmente nos arbustos que decoravam a cidade. Observei a lua, e depois as estrelas. E então algo que quase me matou de susto: De cima do telhado da loja de onde havíamos acabado de sair, uma mulher com uma serra elétrica carregava, pelo pescoço, um menininho de cabelos ruivos e roupas de marca. O garoto estava desmaiado, mas não morto, e a estranha moça estava prestes a parti-lo em dois. Ela aproximou a arma do corpo do garoto, quase encostando no minúsculo corpo, o que já pareceu lhe desconfortar mesmo estando inconsciente.
—NÃO! — Gritei, sem conseguir conter minha fúria. Para mim, o mundo vibrava agora, como num terremoto, mas eu sabia que isso era puro efeito da raiva em excesso. Minhas palavras ecoaram noite afora, chamando atenção da materializada em cima da loja, que agora ameaçava jogar o menino daquela altura. — DEIXE-O EM PAZ, É AMIM QUE VOCÊ QUER SUA MALDITA! VENHA ATÉ NÓS E O LIBERTE, COVARDE!
A mulher apenas riu, balançando descuidado o corpo que segurava pelo pescoço, o que me fez vibrar ainda mais.
E então uma grande luz surgiu a minha frente, brilhando em um tom cinza, se concentrando em um globo iluminado de mesma cor e que liberava fumaça no mesmo tom a sua volta. Era, resumidamente, um globo de luz que deixava, por onde passasse, uma espécie de fumaça de mesma coloração que o seu núcleo.
A mulher, assustada assim como eu, se desintegrou em uma fumaça negra e deixou o menino cair. Este que, estranhamente, caiu leve como uma pena em cima de algumas plantas que cercavam a loja de conveniência.
O globo de luz desceu lentamente até encontrar o chão, então começou a se esticar e afinar. Após alguns segundos, o que havia na minha frente não era algo sobrenatural. Na verdade, me parecia uma simples e acinzentada... Fuinha.
— Inna... Isto é... Quer dizer... É...
—A minha... Aura?

Ficamos escondidas atrás de um grande caminhão até que o menino despertasse. Agora eu tinha minha própria aura... E era um dos meus animais preferidos. Tudo seria diferente, inclusive nas batalhas. Paul uma vez me explicou que uma aura é, por bem dizer, parte da força espiritual de alguém, de modo que se ela morrer, parte de sua vida também se perde. Mas, enquanto estivesse ao seu lado, sua aura seria capaz de dobrar sua força e, em alguns casos, velocidade. Mas isto apenas para quem a treina adequadamente... Nada que aconteça com esse grupo de adolescentes...
—Precisamos encontrar os outros! — Sussurrou Micka, agachada com o menino no colo. — Onde será que...
—Meu filho! — Gritou uma dama de vestido vermelho e cabelo ruivo em coque do meio do asfalto. — O que vocês fizeram com o meu bebê? Dê-me ele!
—Senhorita Wishburg? — Perguntei retoricamente assim que reconheci as feições doces e joviais de nossa professora de sociologia.
—Oh, senhor, o que vocês fizeram com o meu...
—Não fizemos nada com ele! — Respondi, nervosa. — O vimos caído na loja de conveniências e pensamos que seria melhor mantê-los conosco até que o pesadelo que está sendo esta noite acabe.
—Bem, já podem me devolver! — Respondeu a professora, parecendo ignorar completamente o meu breve discurso explicativo. — de qualquer forma, agradeço a proteção, e muito obrigada por encontrarem ele! — Por fim, soltou um rápido sorriso, pegando o garoto no colo e correndo para a limusine branca que a levara até ali. — Vamos bebê, papai está nos esperando...
O automóvel se movimentou após alguns segundos de silêncio, saindo do cenário assim que dobrou a segunda esquina. Voltei-me para Micka, que olhava atentamente por baixo do caminhão.
—Tem um homem lá... — Disse, levantando-se rapidamente com sua respiração levemente mais ofegante que a minha. —Está mordendo o pescoço de uma mulher inconsciente!
—Já chega, isso tem de acabar! — Disse, socando o material que constituía o caminhão e me levantando. Caminhei até o posto novamente, com passos decididos e minha nova fuinha tentando acompanha-los. — Hey, você! — Disse, chamando a atenção do homem, que agora largava o corpo desacordado aos seu pés. Era um moça linda, de mais ou menos um metro e oitenta de altura de cabelos cacheados e castanhos. Já o homem, também lá para os seus um metro e setenta, tinha olhos negros e secos, e uma boca por onde escorriam vários pequenos rios rasos de sangue. Seus dentes, que mais lembravam os de um tubarão, também estavam tomados pela vermelhidão. Passei por uma caixa de mecânico largada ao lado de um dos tanques de gasolina e agarrei a primeira coisa longa e pesada que encontrei. Ótimo, era um enferrujado martelo! — Venha me pegar, cretino!
O homem realmente correu em minha direção, com as mãos sujas de sangue a mostra e seu pescoço repleto de arranhões profundos. Sua camiseta estava aos trapos, suja de terra aqui e ali e com rasgos enormes na barriga e nas mangas. Igualmente com sua calça de malha.
O rapaz logo estava a quatro passos de mim, quando preparei meu martelo e o joguei com força na direção de sua testa.
— Argh... — Gritou, assim que o ferro perfurou e permaneceu cravado próximo a onde começava os primeiros fios de cabelos levantados em um topete.
Pisei com força sobre seu peito e arranquei bruscamente o martelo. Assim que ele tentou se levantar, ataquei-o mais algumas vezes, socando com o martelo na área entre o nariz e a testa. Logo, o que há duas semanas atrás me deixaria nauseada, um buraco por onde o sangue jorrava havia se aberto, e o corpo estava sem vida alguma.
Joguei o martelo enferrujado ao lado do corpo, e então me virei para onde Micka estava. Meu mascote estava entre nós duas, correndo na direção de minha amiga. Agarrando-a por trás havia outro homem, um pouco mais novo que o que eu acabara de matar e que se desintegrava em fumaça enegrecida. Na verdade, eu reconhecia aquele garoto. Era tão próximo quanto um mosquito qualquer, mas ainda assim era conhecido.
Ela tentava se livrar dele, mas ele era forte de mais. E havia a agarrado de forma que ela mal conseguia se mover. Seu rosto me passava agonia, e isso me enfureceu mais ainda.
—Andrew! —Gritei, correndo para tentar afastá-lo. Até que alguém, silenciosamente, agarrou a cabeça do garoto que assediava Micka e a girou, quebrando o pescoço do rapaz.
Assim como Micka, não pude deixar de conter um grito. Não fui rápida o suficiente para ligar meu raciocínio de sempre. Chilly parou na mesma hora, voltando a ficar do meu lado.
—Morra, maldito espírito fugitivo! — A voz que soltou essas palavras era dócil embora decidida. O que me assustou. Assim que o corpo do garoto caiu, pude perceber as feições delicadas e gentis de... Senhorita Wishburg? Espere... Mas...
— o que está fazendo aqui? — Perguntei. Em minha cabeça, um verdadeiro nó crescia a cada minuto. — Vimos a senhora sair com seu filho não faz dez minutos. Como pode...
—Charles? ENTREGARAM CHARLES? — a professora agora trincava os dentes, batendo com o pé no asfalto frio. — Não acredito que caíram nessa! Como podem ter sido tão idiotas? Vocês entregaram meu filho à um materializado! ENTREGARAM O MEU FILHO?
— Como sabe sobre... Espere... Você acaba de matar Drew!
—Mais uma vez, um materializado, não Andrew! — respondeu, retirando de sua bolsa negra um pequeno livro desgastado, totalmente negro com o símbolo de um sol rachado no canto inferior direito. — Quanto a sua “quase” pergunta: Acompanho May Crommwell há muito tempo. Sempre estive a espera da nova geração...
— Do que está falando? — Perguntei, puxando Micka, que permanecia encolhida e paralisada, para que ficasse de pé ao meu lado. — Como pode saber de tudo isso?
—A guerra do eclipse não gira em torno exclusivamente dos Crommwell. Existem outras famílias de bruxos, como por exemplo, os Winngle, da América do Sul. Ou... Os Wishburg.
Meu mundo parecia que estava a ponto de desabar. Todo esse tempo, sabíamos da existência de outras bruxas, como as famosas “da causa”. Mas, famílias inteiras e, ainda por cima, vivas... Saía completamente das explicações de Celly.
— Há muito tempo, um velho feiticeiro foi derrotado por quatro autênticos bruxas e bruxos. Com seus domínios sobre a natureza, ele esperava vencer do grupo enterrando-os junto com raízes de grandes árvores. Mas, então, um dos bruxos foi mais rápido do que ele... — A professora parou, como se estivesse vendo uma cena que só ela conseguiria enxergar para, depois, passar os dados corretos às crianças. —Joseph Crommwell incendiou todo e qualquer tipo de ser vivo próximo ao campo de batalha. O feiticeiro, que havia aprendido dois dos quatro elementos, provocou uma forte chuva. Mas então já era tarde demais... Não havia lagoas ou rios por perto, e as árvores se tornaram dúzias de carvões gigantes. Em seguida, Giselly Winngle, que passou anos especializando sua magia no controle de animais, fez com que lobos chegassem ao local... Lobos famintos e terríveis, que logo avançaram no pobre feiticeiro. Terminando o serviço, enquanto o que sobrou do oponente ainda conseguia respirar e raciocinar, Tanaya Wishburg e Wilbur Conoveiar o envolveram em um pequeno espiral de fogo, que o tomou rapidamente, incinerando-o. Mas, segundo antes de perder completamente a vida, o feiticeiro encontrou forças para lançar lhes uma maldição.
Inna ficou paralisada, e sentia que Micka estava a ponto de desmaiar, se não coisa pior. E sua fuinha, Chilly, parecia prestar tanta atenção à conversa quanto as meninas. Talvez até mais.
—Suas palavras... “Enquanto houver um único pinheiro vivo, ou uma única tulipa crescendo, o destino se encarregará de tirar-lhes a vida, um por um, de forma cada vez mais dolorosa.” “Quando o Sol e a lua se encontrarem, soltando sua primeira onda de magia, cada família perderá um de seus pecadores.”. Assim, um único trovão tombou o céu, seguido de uma terrível tempestade que chegou há durar três dias.
“Joseph Cromwell resolveu fugir. Juntou suas poucas coisas e convenceu sua mulher e seu casal de filhos a segui-lo. Saindo da Europa, Os Crommwell e os Wishburg chegaram, juntos, à América do norte, separando-se das outras duas famílias, que foram para a América do Sul.
“Mas o destino revidou... Três dias depois de sua chegada, Joseph foi queimado vivo por integrantes da igreja católica. Logo depois, sua mulher teve a mesma morte, mas ordenou que os filhos fugissem a tempo. Dayana e Thiago passaram a morar com os Wishburg, que logo foram atacados também. A igreja incendiou a fazenda da família, onde todos morreram, exceto Tanaya, sua filha de dezessete anos, e as duas crianças da família Cromwell. Desde então, a vida de ambos se tornou uma constante fuga, e até a geração passada foi essa mesma luta. Até que a igreja perdeu boa parte de seu poder... Mas a natureza não deixou barato.
“Assim que os descendentes pensaram estar livres, a maldição do feiticeiro realmente passou a ataca-los, fazendo com que todos se voltassem contra eles no primeiro eclipse do ano. O que nós gostamos de chamar de “guerra do eclipse”. A cada guerra, algum bruxo de alguma das famílias era morto de forma extremamente violenta. Se não bastasse, surgiu outra espécie de humanos. Os encarnados, espíritos rejeitados, foram trazidos a terra, e apenas seriam livres novamente se completassem sua missão: Matar algum bruxo de uma das quatro famílias mais poderosas durante a guerra.
—E assim nasceu o terror dos Cromwell... — Disse uma voz melosa de trás da professora. Assim que percebi, Marianne estava ao lado da outra mulher, com um sorriso de deboche estampado na cara e seu típico vestido vermelho colado de tecido desconhecido.
—Inna! — embora o susto, consegui distinguir de onde vinha o som e olhei na direção de onde achava que vinha. Percebi que ambos no cenário fizeram o mesmo.
Virando a outra esquina, quase chegando até nós, Paul, Tie e May corriam ofegantes em nossa direção.
—Isso é o que eu chamo de encontro às escuras... — Ironizou Marianne.

(Continua...)

Lua escura - Parte 3

Senti uma extrema náusea assim que o bafo de morte invadiu meu espaço. Quase sem sucesso, tentava afastar o garoto-tubarão pondo meus braços entre nós dois. Agora estávamos caídos na calçada, ele tentando apenas me envenenar, mas ainda não havia conseguido cravar os dentes em minha pele, graças a Deus.
Por um instante, ao desviar os olhos, percebi que outro indivíduo da qual não me recordava à memória distraiam May e Tie, com sua ira praticamente visível. Só então percebi que não teria algum apoio naquele momento... Teria de aprender a me livrar daquele defunto sozinho. Deixei um de meus braços entre meu corpo e o outro ser caído sobre mim, enquanto tentava pegar alguma das duas facas com o outro.
Ouvi os gritos à minha frente: “Largue-o!”, “May, o punhal, pegue o punhal!”, “estou tentando recuperá-lo!”. Minha pele formigou. Eu precisava ajuda-los, ou seria tarde demais. Preciso me livrar de Heath...

----------- Paul:

Enfim, alcancei uma das facas negras. Com algum esforço, consegui tirá-la de meu cinto, percebendo que meu outro braço estava a ponto de ficar dormente. Não me lembro de sentir alguém tão forte a ponto de me machucar. Mas, afinal, a culpa é do Halloween.
Consegui! , Pensei, erguendo um pouco a faca e enfiando sua lâmina de trinta centímetros na nuca do garoto morto. O mesmo lugar em que ele havia sido atingido há algumas semanas para conhecer a própria morte. Após alguns segundos joguei o corpo sem vida ao meu lado e observei-o desintegrar em uma luz enegrecida.
Levantei-me a tempo de ver May e Tie acabarem com três daqueles seres, que também desapareceram em uma luz negra. Os dois se puseram rapidamente ao meu lado, ofegantes assim como eu.
—Você está bem? — Perguntou-me a bruxa, ainda com o punhal na mão.
—Sim, e vocês?
—Precisamos sair daqui... — Rosnou Tie, também segurando sua arma. Só então me dei conta de que deveria segurar minha outra faca também, e assim a fiz. — Temos que nos esconder Paul!
— Eles nos encontrarão se nós nos mantermos parados em um lugar fixo, e então ficaremos cercados.
— E o que sugere? — Perguntou May.
— Vamos continuar fugindo, temos que encontrar os outros!
— Que outros? — A voz surgiu atrás de nós seguida por um riso maléfico.
Lentamente, nos viramos. Estávamos com medo de ver o que nos esperava, e com razão. E lá estava ela: A dama das aranhas. A mesma que o homem misterioso de aura branca havia matado para nós, na velha mansão.
Erguendo uma de suas mãos, a mulher trouxe a vida alguém que proporcionava realmente medo a nos três. Senti May repreender um grito assim que percebeu o que a dama estava fazendo, e Tie deu um passo atrás, parecendo ter ficado sem ar por um instante.
E então, a apenas alguns muitos poucos metros de distância, ele gritava de fúria. Pegou um grande machado prateado de seu cinto e gritou, o que realmente abalou nossos espíritos.
— Occ... Occino... — Conseguiu dizer May, antes de ter uma rápida paralisia.
— Eu gostaria de poder brincar com vocês... Mas preciso rever um velho amigo e seu pequeno tigre... — Um sorriso de prazer tomou a mulher, que logo voltou à realidade. — Occino, acabe com eles! — Gritou, antes de desaparecer em uma fumaça quase invisível.
O gigante começou a vir em nossa direção, com o temível machado em suas mãos, quando algo inusitado aconteceu: Uma espécie de ave desceu dos céus e perfurou um dos olhos do monstro, que deixou a arma cair no asfalto, o que chamou a atenção dos moradores. Enfim, eles pareceram perceber que havia algo de errado, e todos começaram a correr.
A rua se tornou um caos! Mães pegando seus filhos fantasiados e se enfiando no meio da multidão que tentava fugir; Motoqueiros buscando suas motos e as usando para ter alguma vantagem na fuga, já que havia muita gente correndo para se usar algo grande como um carro. Até alguns policiais que ali havia tentavam atirar sem êxito no espírito mercenário, mas logo entraram em pânico e resolveram fugir com o resto dos desesperados. Em maio ao caos, uma das casas começou a pegar fogo, e o mesmo tentava se espalhar pelas demais moradias.
A ave novamente desceu até o gigante, mas agora não havia conseguido provocar nenhum ferimento. Só então percebi porque era tão difícil vê-la voar: Ela era negra. De um negro tão intenso quanto a noite, e agora vinha em nossa direção rapidamente.
—Sturk! — Gritou May, e então percebi que era verdade.
Meu coração disparou. Era como ter uma grande parte da minha vida de volta em meus braços. Há muito tempo que minha família se resumia a este fiel pássaro que agora pousara em meu braço e que eu acariciava com felicidade suficiente para acender todas as lâmpadas de Boston. O tempo parou por alguns segundos, mas então a realidade me puxou de volta quando Sturk levantou voo e, mais uma vez, tentou causar algum dano ao grande espírito materializado.
Sturk voava de um lado para o outro. O que não machucava quase nada no monstro, mas o deixava desnorteado... E cada vez mais irritado. O pássaro quase foi atingido uma vez, mas então dois outros animais apareceram correndo pela rua, também rodeando o gigante. Agora eram Sturk, Thor, e Owllie nos ajudando a ganhar tempo. De qualquer forma, ambos estavam sem seus divinos poderes.
—Precisamos sair daqui, com certeza outros materializados já sentiram nossa presença! — Sussurrei para os outros, mesmo não querendo deixar minha aura com esse horrível monstrengo.
—Precisamos encontrar Micka e os outros! — Sugeriu-me May, que parecia ter recuperado os sentidos.
Tie, de repente, pousou a mão sobre a cabeça e fechou os olhos. Parecia estar sentindo algum tipo de dor, talvez enjoo, pois teria caído se eu e May não tivéssemos sido mais rápidos. Assim que abriu os olhos, percebi o que estava havendo. Lembro-me bem dessa dupla na minha geração, e só agora havia percebido que Tie fazia parte da nova dupla de mensageiros.
—Inna está falando comigo... — Confessou, um pouco mais ofegante que a três minutos atrás. Os mensageiros não perdem seus poderes de contato no Halloween, mas sentem uma dor mais forte a cada vez que a usam. Ainda mais esses dois, completamente destreinados. — Paula está com ela e Micka com sua mãe e Isa, as cinco acabaram de ver a multidão que saiu correndo desta rua.
—Diga a elas que corram para qualquer lado, e que se separem em duplas, assim seu cheiro ficará mais fraco aos materializados.
Observei o garoto quase desmaiar mais algumas vezes, e um pequeno corte se abriu sozinho em seu braço, por onde escaparam algumas poucas gotas de sangue. Após algum tempo, ele havia voltado a si.
—Micka e Inna estão indo para a escola, enquanto Paula, Jeniffer e Isa vão voltar até a casa de uma das duas para pegarem algo que lhes sirva como armas. — Tie enfim notou o corte em seu braço, mas expliquei rapidamente o porquê de ele estar ali.
—Vamos sair daqui, estamos parados há muito tempo...
—O diário! — gritou May, assustando a mim e o outro garoto. — Alguém na multidão pegou o diário da minha mão! Eu não havia percebido... Mas... Eu preciso daquele diário! Eu tenho que... Eu preciso... AMY! — de repente a garota mudou de um estado assustado e nauseado à um completamente raivoso e decidido. —EU VOU MATAR AQUELA DESGRAÇADA!
—Não foi Amy quem roubou o diário! — afirmou outra curiosa voz. E, esta, eu reconheceria em qualquer lugar. Assim que me dei conta, a senhora já estava abraçando May, que não compreendia absolutamente nada.
—Senti tanto a sua falta... Mas... Você cresceu tanto... — Madellyne agarrava com força sua neta, e as lágrimas rolavam por suas maçãs bem definidas do rosto. — Se eu pudesse estar protegendo você todos os dias... Se eu não tivesse... Se eu...
—Vovó... — May, então, percebeu quem era aquela mulher que sentia tanto afeto por ela. Ela não conheceu aquela mulher, mas sentia quem era. — Não se culpe. A senhora conseguiu me proteger, vovó. Eu estou aqui agora, viva, saudável. Talvez um pouco atordoada e confusa com tudo, mas estou bem!
—Ah, graças a Deus... — a mulher desfez o abraço, passando mais algum tempo com as mãos no rosto da garota.
—Uma geração inteira se passou, e a velha continua me ignorando... — Brinquei, estampando um sorriso no rosto. Ver aquela senhora bem na minha frente, depois de tanto tempo, não podia me fazer deixar de pensar em sua linda filha...
—Oh, Paul, querido! — Madellyne correu para mais um abraço, e então senti um arrepio na nuca. Suas mãos continuavam macias e quentes, como as de uma avó apegada a sua família. Seu cheiro, de hortelã, continuava tão relaxante como anos atrás. Aquela ali, que me abraçava, era a mesma jovem valente e caridosa que, há tanto tempo, havia salvado minha vida tantas vezes. Só então percebi o papel de Jennifer em toda essa história. Assim como Madellyne era na minha época, a mãe de Micka havia, sutilmente, recebido o brilhante papel de protetora desta nova geração. — vejo que tem uma leve tendência a herdeiras Crommwell... — Disse, com um sorriso que me deixou completamente vermelho de vergonha. — Acalmem-se, estou apenas brincando. E você... — Disse, apontando o indicador para Tie. — É um dos mensageiros... Bom, desejo-lhe muita sorte, vai precisar...
Observei Tie gelar como um picolé de coco. Sem dúvida, o destino reservaria algo péssimo para sua vida. Afinal, todo poder gera um custo. Eu sei bem disso... Era um dos mensageiros de minha geração.
—Precisamos sair daqui! — Voltei a dizer, chamando a atenção das três figuras a minha frente.
— Sem dúvida, — Concordou a avó de May. —Eu preciso encontrar a bruxa dos aracnídeos, ela é uma das punidas que voltou sem permissão pelo portal. Por isso estou aqui, para completar esta missão. Mas, May, não desista! Amy não pode pegar o diário de forma alguma, entendeu? Ela pode ter uma aura roxa, mas seu espírito é tão negro quanto a magia de Marianne. Guarde-o com você sempre!
A mulher entregou o livro para sua neta, que implorava para que sua morta avó ficasse com ela até o fim da noite. Tempo perdido: a senhora já havia desaparecido, deixando para trás um pouco de sua fumaça rosada que logo se desfez no ar.
— Não podemos deixar Occino por aí! —Disse Tie, fazendo-me virar para olhar o gigante mais uma vez, cercado pelos quatro animais que tentavam deixa-lo tonto. — Espere... Aquele é o gato... Aquele é Burnstein!
E era verdade. O gato preto agora estava aliado às demais mascotes, correndo e saltando de um lado para o outro, atrasando e até distraindo o tal monstro mercenário. Isso só deve querer dizer que Marianne deveria estar por perto.
—VAMOS! — Gritou May, apontando para duas cabeças que, por meio de algo que parecia um buraco negro no terreno de uma das casas, saíam de baixo da terra.
Assenti para os outros dois, simbolizando que deveríamos correr. E então o fizemos. Não paramos por muitas quadras, ambas completamente vazias e gélidas, até que vimos um casal com seu filho fugindo de um materializado adulto, com muitos músculos e uma roupa esfarrapada. Tinha a cabeça raspada e muitas tatuagens. Soubemos que era um materializado apenas pela arcada dentária reluzente à luz prateada da lua, que parecia segui-lo.
Tie e May prepararam seus punhais, e eu segurei firme meu par de facas. Assoviei, sempre com cuidado para não chamar atenção demais, e observei enquanto o ser voltou o olhar verde escuro para nós e passou mudou sua rota, correndo em nossa direção. Não consegui esperar: Assim que ele estava a apenas cinco passos de nós, me joguei em cima dele, com as facas erguidas, perfurando sua testa e seu peito. Esperei que caísse sem vida no chão e peguei as facas de volta. Estas que eu limpava na minha camisa negra (e, agora, com manchas vermelhas inclusive em suas longas mangas). Pensei em ironizar um pouco, me gabando com meus dois amigos pelo meu desempenho, mas eles travavam sua própria batalha.
May, que prendera seu diário na parte de trás do cinto (após aperta-lo mais um pouco), brigava com dois dos materializados, enquanto outro, uma mulher de olhos negros e aparência de uma madame metida de Nova York, prendia Tie no chão, tentando mordê-lo. Mas, sua faca estava em sua mão, porque não atacava? Porque não... Ah, meu pai, não consigo acreditar.
Assim que percebi que o garoto não tentaria matar a mulher, cravei minhas duas facas nas costas dela, que caiu molenga em cima de Tie. Após recuperar minhas armas, chutei o corpo para a direita e ofereci a mão para que Tie se levantasse.
—Amigo, não existe cavalheirismo com essas coisas! — Disse a ele, que abaixou a cabeça, envergonhado. — Apenas tome cuidado... Lembre-se de que não se tratam de pessoas normais. Se não mata-las, elas te matam.
— SERÁ QUE OS DOIS CAVALHEIROS REAIS PODEM ME OFERECER ALGUM SUPORTE? — May gritou tão alto que até Occino deveria ter escutado. Mas isso me despertou, e a Tie também.
Ele pegou seu punhal e o cravou rapidamente no pescoço de um dos dois homens que atacava a bruxinha, que caiu morto. O outro eu tive o prazer de cuidar: Esperei que May o paralisasse com outro daqueles seus chutes certeiros e então uni a força das duas facas negras e decepei após algum tempo, enquanto ele gemia, sua cabeça.
Ambas as figuras desapareceram em fumaça negra após pouco tempo.
— Precisamos chegar a Inna agora! — Soltou Tie, parecendo um pouco tonto. Estava óbvio que havia ocorrido outra comunicação. — Ela e Micka se prenderam na loja de conveniência do posto da esquina da escola. Do lado de fora, segundo ela, alguém com uma serra elétrica.
May me encarou, pasma, e então voltou seu olhar para Tie. Agora, lágrimas escorriam pelo rosto gelado da garota.
—Paul... Precisamos ir! — Voltou a dizer, seriamente, o garoto. Seu rosto havia recebido uma forçada pincelada de preocupação extrema.
Assenti, embora soubesse dentro de mim que não teríamos tempo suficiente para chegar ao local.

(Continua...)

Lua escura - Parte 2

Abaixei o capuz para sentir a brisa que corria ao meu redor. A rua não estava movimentada, mas também não literalmente vazia. Um casal passeava alegremente pela calçada a minha esquerda, se beijando vez ou outra ou apenas sorrindo. Ouvi suas risadinhas, seus sussurros, seus passos. Era realmente assustador presenciar algo tão normal depois das últimas experiências.
Eram sorrisos sinceros aqueles. Sorrisos tão puros, capazes de domesticar até o maior assassino de todos os tempos, o que me causou um arrepio demorado.
Qualquer outra pessoa correria ou desmaiaria no momento em que o lindo casal desapareceu feito fumaça e ressurgiu, sacudindo as folhas caídas ao redor, a três metros de distância de onde se encontravam. Qualquer outra pessoa que não tenha os ensinamentos de Paul. Qualquer outra pessoa que não tenha uma aura-protetora-animal a seguindo por todo o canto.
Mas eu não era qualquer outra pessoa... E hoje não era um dia qualquer...

————————— Tie:

Observei enquanto todas as outras pessoas corriam alegres, tentando conseguir arrumar suas casas para esta noite. É incrível o modo como todos adotam o espírito deste feriado macabro, e eu não me excluo desse “todos”. É impossível não amar o Halloween.
Passei pelo pequeno e largo portão de madeira de minha casa, ignorando o gramado verde e as poucas flores que se alimentavam da luz. A porta já se encontrava aberta. Provavelmente Paul deve ter chegado de sua busca por Marianne assim que percebeu que ela não voltaria, e agora estaria entediado zapeando pelos canais de TV ou visitando o blog “Elementares” pelo meu laptop.
Joguei minha mochila em um dos bancos da cozinha e matei minha sede com um copo de água bem gelada. Gastei pouco mais de cinco segundos no cômodo até avistar Paul descendo do sótão com uma caixa enorme feita de papelão e alguns outros tipos de papel.
—O que é isso? — Perguntei, me aproximando antes de perceber que estava lacrada.
—Coisas indispensáveis para o dia das bruxas... — Respondeu, deixando a caixa em cima do balcão. — Hoje não é um dia comum, Tie. O Halloween é o dia dos espíritos.
—E daí?
—O único dia do ano em que os mortos se materializam em um corpo real e podem andar livremente por aí. — Respondeu, pegando um facão na primeira gaveta do armário para romper o lacre. — Somos procurados em ambos os mundos agora, não podemos deixar que eles se aproximem de nós. Sabe, estando “vivos”, eles tem mais facilidade em nos matar. E, acredite, os mortos ainda querem o sangue de May.
—Materializam? — Repeti, assustado. Observei-o, enfim, abrir a tal caixa e retirar de lá objetos conhecidos e alguns outros que eu não sabia exatamente explicar o que eram. — Isso quer dizer que todas as coisas que nos atacaram nos últimos dias retornarão?
—Pior que isso: — Disse, assustando-me mais ainda. — Isso quer dizer que muitos deles virão especificadamente atrás de seus corpos vazios.
—Vazios?
—estarão vazios assim que eles matarem vocês... — Me explicou, jogando-me uma abóbora roxa com uma vela inteira dentro, que eu quase deixo se espatifar no chão. — A menos que estejamos preparados.
—E o que exatamente essas... Éh... Abóboras tingidas farão para impedir?
—Nada... — Disse, sorrindo como deboche. — Mas essa casa precisa dar um susto em, pelo menos, uma criança...
Sorri por dois segundos. Pela primeira vez, Paul parecia entusiasmado com alguma coisa, e eu não seria um bom amigo se estragasse isso. Era estranho chamá-lo de amigo depois de todas as experiências que ele nos fez passar. Mas, afinal de contas, ele nos salvou. Vê-lo como um amigo era o mínimo que todos nós poderíamos fazer.
—Bem, May costuma ter coisas sobrando no Halloween, vou checar se ela pode ceder algo... — Disse, pegando uma das maçãs da fruteira de cima do balcão e dando alguns passos na direção da saída.
—Veja se ela não pode emprestar alguns esqueletos. — Sugeriu, subindo no balcão para pendurar teias falsas no teto.
Sem responder, passei pelo largo portão branco e caminhei até a rua vizinha, onde moravam May e, até pouco, Heath. As calçadas também estavam sendo decoradas este ano, com túmulos falsos e zumbis de cera, o que me desconfortou seriamente. Assim que passei pela última horda de mortos-vivos reparei que a rua mais parecia um cemitério, e que as pessoas, estranhamente, estavam felizes com isso.
Antes mesmo de me dar conta, estava a apenas alguns passos de distância da casa de May, e agora eu avistava mais alguns zumbis de ceras e muitas múmias de papel higiênico. O céu ameaçava chuva e, curiosamente, esta rua estava completamente vazia.
Mesmo evitando pensar muito, não pude deixar de sentir a presença de minha coruja em algum lugar próximo. Claro que ela não me obedeceu quando eu a mandei me esperar em casa com Paul. Apesar de aparentar ser apenas uma ave, ela era uma aura bem insistente.
Assim que o assunto me fugiu a cabeça, avistei o animal sair voando apressado da casa de minha amiga. Logo depois, uma espécie de raposa saltou para fora do terreno, se transformando em uma aura de cor roxa e seguindo minha ave.
—May? — Corri os últimos dez passos até a casa da jovem, e me assustei ao ver outra garota sendo envolvida por uma espécie de fumaça de mesma cor que a verdadeira forma da raposa. — May? O que é isso?
—Tie, tire Thor daqui! — Me gritou, sem olhar diretamente para mim.
Sem pensar, assenti. Corri até a metade do gramado e agarrei o cachorro, que saltou de meus braços e atravessou a rua correndo atrás dos outros dois animais. A velocidade daquele cão era incrível, tecnicamente impossível.
—May! — Gritei assim que a outra garota fez chamas crescerem ao meu redor.
—Deixe-o! — Ordenou com um grito enquanto a chama se extinguia aos poucos. — Não meta meus amigos em assuntos familiares, sua vadia!
—Dê-me o maldito diário agora, ou este jovem pode ter uma longa falta de ar!
Tive um rápido arrepio, seguido de um intenso frio na barriga. Se eu entendi bem, essa bruxa acabara de me incluir em uma “guerra” de família ameaçando provocar a minha morte. Minha cabeça foi capaz de raciocinar pelo menos isso, e também que o que eu viria a fazer a seguir seria muito perigoso sem minha coruja por perto. Mesmo assim, eu o fiz.
Antes mesmo de May responder a ameaça de sua colega, corri até ela e agarrei o diário de couro preto antes de puxar sua mão e sair correndo pela calçada. Ouvi um grito de fúria desumano atrás de nós, mas não desacelerei o passo ou ousei olhar para trás, continuei correndo com May e o diário Crommwell.
—Tie, o que está fazendo? — Perguntou, ainda correndo.
Ignorei a pergunta e entrei na rua seguinte sem prestar muito atenção nos vizinhos que nos encaravam como se fossemos loucos. Bem, provavelmente somos loucos. Passamos por mais algumas casas grandes que, por sinal, estavam decoradas perfeitamente, e entramos em minha casa, chamando atenção de Paul, que enchia uma grande panela de barro com água e gelo seco. Mas, assim que viu nossas caras e o jeito como eu segurava o diário, sua expressão mudou completamente.
—O que... O que houve? — Perguntou após abandonar a panela e se aproximar de nós dois.
—Amy Crommwell! — Respondeu May, ofegante. — Ela veio buscar o diário... E agora quer matar a mim e a Tie.
—fiquem aqui dentro até escurecer, entendido?
—Por que até o escurecer?
—Há muito tempo uma maldição foi feita... — Começou Paul. — Uma maldição que bloqueava o poder de toda e qualquer bruxa temporariamente. Na noite de Halloween, ninguém tem poderes. Bruxas, encarnados, absolutamente ninguém!
—Não falta muito para que a lua chegue... — Lembrei. — Podemos aguardar aqui um pouco, antes que tudo piore. Mas... E os outros? E minha coruja? Micka não sabe que...
—Não se preocupem. Na verdade, só nos resta esperar no fim das contas...
Os pelos dos meus braços se arrepiaram, e notei que May sentia exatamente o mesmo quando vi sua expressão. Entrelinhas, Paul não estava necessariamente falando sobre a maldição do Halloween. Não, ele estava falando sobre outra maldição. A guerra em que a descendente Crommwell estaria destinada a largar sua vida, literalmente. Pela primeira vez, eu realmente percebi que Paul não queria a morte de May. Ele a queria aqui, conosco.
A pergunta agora era: seria possível que um jovem encarnado teimoso mudasse tão rápido de opinião em relação a adolescentes que tentou matar várias vezes? Ou será que ainda existe um plano por trás de tudo isso? Afinal, onde está Marianne neste exato momento? E Celly? Onde se encaixa o desaparecimento dela?
Quebrei minha linha de raciocínio assim que comecei a imaginar coisas absurdas e assustadoras. O pior foi pensar que a maioria das minhas hipóteses poderia se tornar realidade algum dia. Tentei, por um segundo, esquecer o assunto.
Paul continuou decorando a casa conforme a lua subia ao céu, enquanto eu observava May escrevendo alguma coisa no diário de sua avó. Sentei-me ao lado dela e observei o que ela registrava:
“31 de Outubro – O nascer da nova geração.
Afinal, isso não pode terminar assim. Essa guerra, tudo está errado! Precisamos arrumar um jeito de impedir isto, precisamos impedir a minha e outras centenas de mortes que isto provocará.
Não fosse o bastante o fato de que querem me matar, agora me aparece uma suposta parenta distante, também bruxa (e muito mais evoluída que eu), que quer por que quer o diário Crommwell, e chegou a quase matar Thor por ele.
Essa não... Quase me esqueci de Thor! Ele correu atrás da aura de Amy (Que por sinal, é um animal extinto) assim que a raposa começou a seguir Owllie pela noite escura de Halloween. Onde estarão eles agora?”.
A moça parou de digitar assim que Paul nos chamou a atenção, jogando para nós dois punhais, um prateado e com a figura de um lobo no centro, e outro de lâmina dourada e com o desenho de uma lua minguante gravada no meio. Mesmo sentindo um pouco de ânsia ao ver a lua, observei enquanto May a segurava e a prendia em seu cinto negro depois de se levantar.
— O que quer que façamos com isso? — Perguntei, depois de pegar a lâmina prateada largada ao meu lado.
—Se defendam! — Respondeu, prendendo um par de facas completamente negras no cinto, assim como May fez. Vendo isto, e tomando nota que parecia ser um ritual para os outros dois na sala, ele fez o mesmo. — A lua está no alto... A noite dos mortos começou!

Se Paul não tivesse nos dito como era perigoso para nós ficar parados em um lugar só em uma noite como esta, May e eu nunca o teríamos seguido por seu passeio pela vizinhança. Nossas armas estavam preparadas para qualquer coisa, apesar de que rezávamos para que não precisássemos mesmo usá-las.
As ruas estavam aterrorizantes: Calçadas repletas de múmias, lobisomens, zumbis, aranhas gigantes, túmulos, sangue falso, uma espécie de gosma verde-fluorescente, e muitas outras coisas... Inclusive pequenas figuras fantasiadas, as crianças. Muitas casas mal-assombradas para uma noite só. Apenas os três pareciam realmente ter medo do que poderia ter dentro daquelas moradias. Aliás, éramos os únicos “fantasiados” de caçadores de bruxas, com nossas “facas” benzidas e as vestes pretas. Apesar das lâminas, ninguém pareceu realmente ligar.
E então, como um vulto, algo agarrou um dos braços de May mais rápido do que uma cobra ataca sua presa. Paul e eu nos viramos no mesmo instante, erguendo os punhais. Mas May foi mais rápida: Mesmo tendo sido impedida de chegar à sua lâmina, a garota deu um chute em um lugar não muito bom assim que se certificou ser um homem. Esse que, agora, gemia de dor e angústia. Permaneceu assim por mais ou menos uns dois minutos completos, e apenas quando se ergueu mais uma vez o trio pode ver de quem se tratava.
—Heath? — Dissemos eu e May, em uníssono, enquanto o jovem abria um sorriso maldoso.
—Vim para ter meu acerto de contas... — Sussurrou, com uma voz um pouco rouca, antes de mostrar assustadores dentes que lembravam uma arcada dentária de um tubarão branco e se jogar em cima de Paul.

(Continua...)

Lua Escura - Parte 1

O Sol começava a se erguer no céu.
A manhã alaranjada vinha acompanhada de uma leve e doce onda de ar que avançava lentamente sobre a população da linda Boston. No alto, onde o céu não dava espaço a nuvens, pássaros voavam livremente, compartilhando seus cantos e suas cores vivas que pareciam concordar com o tom da luz natural.
Olhei atentamente para um jovem casal de esquilos que se esconderam atrás de uma moita assim que eu me aproximei. Não consegui conter o sorriso, e nem quis. Era muito bom poder sorrir novamente. Descansar. Poder pensar um pouco como alguém normal, em uma rotina normal, em seu mundo completamente normal.
Infelizmente... Sei que isso não vai durar muito.

——————— MAY:

A rua estava vazia devido ao horário. Estava muito cedo. Eu caminhava alegremente enquanto meu i-pod reproduzia “When i look at you” da Miley Cyrus. Estava um dia realmente perfeito para mim.
Finalmente cheguei ao meu destino.
Passei pelos gigantescos portões centrais da escola, cumprimentado os muitos alunos que já haviam chegado e agora se distribuíam em seus pequenos bandos. Era ruim ter de falar com todos, mas eu queria realmente fazê-lo. Queria, mais uma vez, brincar de ser importante em meio à sociedade.
Passei direto pelo pátio central, subindo pela escada de meio-pátio e chegando a uma área do segundo andar onde o caminho oferecia três opções. Três corredores distintos: Um repleto de armários com banheiros ao final; Outro onde foram construídos quatro enormes laboratórios de química; E outro que resultava em pequenas salas de aula de línguas estrangeiras diferentes.
Dei uma olhada para além da escada, para o pátio por onde eu havia acabado de passar. Lá estavam Paul e Tie. Tie tentava ser o GPS do garoto loiro até que ele se acostumasse de verdade com o local. Parecia estar fazendo um belo trabalho, pois Paul possuiu uma expressão ansiosa assim que seu amigo apontou para a sala de aula teatral.
Voltei minha atenção para o corredor dos laboratórios. Eu estava realmente doida para conseguir uma daquelas questões quase impossíveis de equilíbrio molecular. Por sorte, essa seria minha primeira aula.
—Pensei que vocês tivessem saído da cidade...— Disse uma voz, quebrando minha atenção. Levei um tempo para me recompor do susto depois que olhei para o lado e vi que não passava de um garoto otário predestinado a não ter futuro nenhum.
—Pensei ter dito a você para não se aproximar de mim ou de meus amigos! – Respondi rapidamente, lançando-lhe um olhar de fogo e culpando a genética por não ter me criado caninos pontudos e garras afiadas.
—Sou o tipo de cara que não sege regras...
—Mesmo? Então, adivinha só: Ontem eu passei no cartório e mudei meu nome para “Regras”! — Sorri sarcasticamente. — Ou seja, já pode me deixar em paz e ir procurar algo para fazer!
—Talvez eu deva mesmo! — Disse, recuando dois passos sem desviar os olhos de mim. — Quem sabe eu e Micka não tenhamos uma conversinha? Ela não me satisfez da última vez. Está me devendo muita...
—Fique longe dela! — Meu tom de voz mudou de impaciente para raivoso. Talvez eu estivesse mesmo exagerando, mas Micka merecia um pouco de descanso antes de receber de volta seus antigos problemas. — Estou avisando, Andrew, se você ousar permanecer no mesmo pátio que ela, eu...
—Você o que? – Perguntou, abrindo os braços, sem abandonar o sorriso. — Você me tortura até a morte? Ou, não, você chama seu novo amiguinho para me torturar... Ai... Já consigo sentir a dor e o sangue me abandonando...
—Algum problema? — Não consegui evitar levar mais outro susto quando uma terceira voz foi auto-adicionada a conversa.
Drew então cruzou os braços, desfazendo o sorriso e voltando seu olhar para o outro garoto, analisando-o de cima a baixo. Às vezes eu me esqueço de que Paul consegue escutar mais do que um humano deveria...
—Não... — Respondeu o ex-namorado de Mickaella, mesmo que a pergunta não tenha sido direcionada a ele. — E, mesmo que estivéssemos com algum, não precisaríamos do seu intrometimento.
—Paul, deixe-o. Não vale a pena... — Disse, puxando o braço do rapaz loiro e o carregando para longe. Demorou um pouco, pois ele era forte demais, mas consegui. Só então percebi o quanto é difícil ter um amigo encarnado, ainda mais quando esse quer se meter em brigas. Em minhas brigas.
Deixamos Andrew resmungando algo à beira da escada, e entramos no corredor dos laboratórios de química, entrando no de número três e sentando na segunda mesa tripla da quarta fileira. Por um instante, voltei a me lembrar do meu último dia na escola antes do caos. Bem no dia em que Micka e Tie foram esperar Isabella no aeroporto. O mesmo dia em que o Sol havia brilhado para nós mais uma vez. O que me assustou outra vez, pois o Sol brilhava hoje mais uma vez.
—Hey, agora vai roubar o meu lugar também? — Disse Tie, sorrindo, enquanto jogava sua mochila no chão e se sentava na última cadeira vaga da mesa. — O que houve? Eu virei por um minuto para pegar a chave de seu armário e você desapareceu.
—Sim, resolvi fazer novas amizades. O povo daqui é bem... Confiante.
—Andrew?
—Sim! — Respondi, antes que Paul soltasse mais um deboche sobre a população de Boston. — Pelo visto as coisas não mudaram por aqui... Nem um pouco.
—É claro. — Opinou Tie. — Não se esqueça de que todo esse sinistro “combate” só aconteceu para nós. Ninguém sabe de nada May, eles não perderam a proteção, lembra? Ninguém daqui consegue ver absolutamente nada do que conseguimos.
Parei para refletir por um segundo.
Parecia loucura, mas era verdade. Tudo pelo qual passamos foi uma história quase que particular. Era-se capaz de ousar pensar até que tudo foi fruto de nossa imaginação. Não fossem as marcas que nunca nos deixariam, poderíamos nos considerar legítimos loucos.
Abaixei a cabeça por um segundo e a balancei, em negativa, enquanto ouvia fragmentos da conversa dos dois garotos ao meu lado. Passou mais um segundo e eu olhei para a outra fileira de mesas, onde todas estavam lotadas de livros esquecidos e reações feitas pela metade. Por um momento pensei em terminá-las, mas então percebi que não me lembrava de absolutamente nada condizente a matéria.
—E o que acontece agora que a lua minguante se foi? — Perguntou Tie, capturando de volta minha atenção.
—Ainda estamos sujeitos a ataques, embora as criaturas tenham muito menos força durante outras fases da lua. — Respondi.
O diário de minha avó foi o suficiente para que eu encontrasse a resposta de tal pergunta. Eram incríveis as descobertas feitas por ela em tão pouco tempo de magia. Porém... Sinto que ainda á algo de errado naqueles registros.

Sete horas haviam se passado. O caminho de volta parecia-me tão tranqüilo quanto o de ida. Em alguns minutos eu estava em meu quarto junto a Thor, que dormia debaixo de minha cama.
Agora eu estava com o diário de Madelynne aberto em meu colo, enquanto eu lia uma das páginas do meio. Nela, haviam descritos dois feitiços de ataque: Um deles servia para distrair, e fazia com que uma terrível tempestade se iniciasse no momento em que o feitiço fosse conjurado; e o outro fazia apenas com que qualquer líquido próximo ao bruxo atacante congelasse instantaneamente. Em meu ponto de vista, feitiços inúteis.
Virei à página.
Essa era uma das páginas que eu já havia lido. Mesmo assim, foquei meus olhos nas últimas palavras, ainda sentindo um calafrio ao fazê-lo:
“Quem conseguir ler isto, obviamente é um Crommwell legítimo! Provavelmente este é o fim para mim... Mas você,seja quem for,caro amigo,ainda pode se salvar! Ainda DEVE se salvar... Se esconda, eles te seguirão, e você deve estar preparado (a)! Boa sorte...
Madelynne R. Crommwell – A bruxa das flores.”
Passei, fria, para a próxima página. Vazia.
Avancei mais duas. Nada.
Estava claro... Aquele foi o último registro de minha avó. Ela não teve tempo de ensinar mais aos futuros Crommwell’s... Não teve tempo de tentar nos preparar para as guerras... Ela foi pega. Foi morta. Mal teve a chance de chegar à guerra do eclipse e tentar manter sua honra.
Mas agora possuo meus próprios problemas... Não posso deixar me abalar por algo do passado. Não agora, justo agora, que todos dependem tanto de mim. De minha mágica inexplorada e, até pouco tempo, inexistente.
Não... Eu preciso ser forte! Preciso de mais...
—Preciso praticar! — Disse, em voz alta, enquanto fechava o diário e caminhava decidida em direção ao jardim.
Desci as escadas e passei pelas portas até chegar ao local desejado, onde eu me assustei ao ver um animal um pouco maior que um cachorro me encarar do canto de margaridas.
—O que é... — Cancelei minha fala assim que reconheci a espécie. Deixei o diário cair, aturdida, e senti minhas sobrancelhas se curvaram involuntariamente. Minha boca congelou, aberta. Fiquei definitivamente paralisada. Se eu não estivesse realmente doida, o que eu estava vendo bem na minha frente era uma...
— Uma legítima Raposa-das-falkland. —Disse uma voz atrás de mim, que me fez pular de susto antes de me virar para trás. — Ou, se preferir chamar assim, Lobo-das-malvinas.
Enfim consegui encontrar o ser que falava comigo. Era uma garota, aparentava ter minha idade e era um pouco mais alta do que eu. Seu cabelo, liso e preto com mechas e pontas azul-escuro, estava preso em um rabo de cavalo, e caía até sua cintura. Ela vestia um conjunto gótico completamente preto: Uma blusa de mangas longas com a estampa de um crânio roxo no centro e uma saia que ia até os joelhos, um par de all-star preto, meia-calça preta e pulseiras pontiagudas roxas e prateadas. Por um momento, lembrei-me de Inna, era impossível não lembrar. Seus olhos eram verdes com rabiscos finos e pretos ao redor, e suas unhas também eram pintadas de pretas.
Peguei o diário do chão e o abracei forte assim que percebi para onde ela direcionava o olhar. Isto a fez sorrir maliciosamente. Após alguns instantes de silêncio, percebi que Thor havia me seguido e rosnava para a raposa. Tentei ignorar, voltando minha atenção para a garota.
— Raposas-de-falkland foram extintas no século XIX. —Soltei, assim que percebi que não sabia o que dizer. Mais uma vez, ela apenas sorriu.
—Me chamo Amy... — Disse, mordendo os lábios. — Amy Crommwell. Feliz em me conhecer, priminha?
Perdi a respiração por dois segundos. Não consegui fechar os olhos, minha pele gelou, minhas mãos enfraqueceram, mas não o suficiente para que eu largasse o livro de minha avó. Enfim, consegui recuperar meus sentidos, embora eu ainda estivesse completamente assustada. Quer dizer, existem outros Crommwell’s? Eu não sou a única?
—Ouvi dizer que está com o diário de minha avó... — Disse ela, estendendo a mão direita. — Ficarei feliz quando me devolver.
—Devolver? —Perguntei, rangendo os dentes. Por algum motivo, eu não conseguia controlar minha raiva com a presença dela. — Eu não preciso te devolver nada! Este diário nunca foi seu, foi de minha avó! Por que eu te devolveria?
—Porque se você não o fizer por bem, eu vou ter que pegá-lo a força! Apenas um legítimo bruxo-Crommwell deve possuir este livro.
—Qual parte da “minha avó” você não entendeu? — Respondi, sentindo o calor subir ao meu redor. — E você? Seu nome nem sequer aparece em alguma página. Em todas as páginas, Madelynne deixa bem claro que o propósito de sua vida era salvar a mim e a minha mãe. Então, se você acha que eu não sou uma herdeira do poder, saiba que você nem sequer existia para ela! — Senti mesmo que fui rude demais. Porém, foi ela quem começou a provocar.
A garota sorriu mais uma vez, com os braços cruzados. O que me fez ir a loucura.
—Então é você mesmo... — Disse ela, enquanto me olhava dos pés a cabeça. — A legítima filha de Cloe... Aquela que foi escolhida pela “guerra do eclipse”.
—Como... Como você sabe sobre isso?
—Quando se é uma das ultimas duas pessoas de uma linhagem inteira de bruxos, você precisa saber do que se esconder...
—O que você quer comigo, então? — Perguntei. Não queria me deixar levar apenas pelo fato de ela ser meu único parente viva no mundo inteiro. Ela não era como eu.
—O diário! — Respondeu, batendo um dos pés no chão, o que fez a raposa saltar, com os dentes a mostra, no pescoço de meu cachorro.
—VADIA! — Sem saber como, ao olhar para o animal atacante, fiz com que o mesmo fosse arremessado para longe, batendo e quebrando a cerca de madeira que ficava em volta do terreno. Voltei a encarar a garota, que agora era envolta por uma espécie de fumaça roxa.
—Agora vamos jogar do meu jeito!

(Continua...)
 

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